DESCANSO PARA LOUCURA: O Poeta e a Obra

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Poeta e a Obra - Florbela Espanca (parte 2/4)

Na primeira postagem nós apresentamos um resumo sobre a vida e a obra de Florbela Espanca e destacamos alguns poemas do livro "Trocando Olhares" (1915-1917).
O destaque agora é para o "Livro de Mágoas" (1919), incluído também na Antologia Poética "Poemas de Florbela Espanca" (2005), por Maria Lúcia Dal Farra (Ed. Martins Fontes).


Livro de Mágoas (1919)

Este livro...
Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.

Este livro é pra vós, Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas... e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!

Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...
E não sou nada!...

Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmão do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou...
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar num verso d’alto pensamento,
E puro como um ritmo d’oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Torre de névoa
Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!...

Dizeres íntimos
É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!...)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebês doentes
Que hão de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!...”
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!”

Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for
Bendito sejas tu por m’o dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-as bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

Alma perdida
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

A minha tragédia
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste, noutra vida,
Trago com meus lábios roxos, a saudade!...

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Velhinha
Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já é velha! Como o tempo passa!...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,

Como se fosse um bando de netinhos...
Copiado de: Goodreads (editado posteriormente).
Copiado de: Sempre Digo

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

3 - O Poeta e a Obra - Florbela Espanca (parte 1/4)

Não só pelos críticos, mas também por todos aqueles que amam aquilo que se é expressado por meio de letras num papel – o amor  poético – da forma mais original, desnuda e incrível, consideram Florbela Espanca como um dos grandes nomes da literatura portuguesa, por que não, da literatura mundial. Nascida em 1824, em Vila Viçosa (Alentejo, Portugal), Florbela d'Alma da Conceição Espanca, teve uma vida bastante breve, se notarmos que a mesma faleceu em 1930, com apenas 36 anos de idade[i]; mas nem por isso, custou deixar sua marca no âmago na poesia mundial. O que se sabe é que Florbela teve uma vida pessoal tumultuada, sofrida, inquieta, especialmente no que refere as suas relações amorosas.  
Sobre a sua religião, dizia Florbela que “(...) o meu racionalismo à Hegel, apoiado numa espécie de filosofia à Nietzsche, chegou-me por muito tempo. Hoje... a minha sede de infinito é maior do que eu, do que o mundo, do que tudo, e o meu espiritualismo ultrapassa do céu” (DAL FARRA, 2005).
Nosso objetivo aqui não é apontar detalhes sobre a sua vida pessoal e/ou enquanto poeta, mas sim, tentar apresentar aquilo que se sobressai, quando pensamos na obra de Florbela; por não conhecer a amplitude dos seus textos, limitamo-nos no trato de alguns deles, destacando poemas e passagens interessantes (que nos acalanta intimamente, logo uma predisposição pessoal) e de outros textos escritos por ela.
Dal Farra (2005) diz ainda que,

Nunca ninguém teve tão vasculhada a sua intimidade, em busca de provas tanto a favor quanto contra, como essa mulher insurrecta! Rainha, sim, mas a duras penas, a ponto de terem profanado aviltantemente a sua privacidade, o bem que lhe era mais caro, se tornava best-seller - lugar que a sua obra ainda conserva hoje em dia -, mais ataques lhe eram dirigidos no sentido de evitar o risco de ser tomada como “exemplo” para as gerações femininas criadas à sombra do salazarismo.

Suas obras:
Livro de Mágoas (1919);
Livro de Sóror Saudade (1923);
Charneca em Flor (1931);
Cartas de Florbela Espanca (...) (1931);
As Máscaras do Destino (1931);
Sonetos Completos (...) (1934);
Cartas de Florbela Espanca (...) (1949);
Diário do último ano (1981);
O Dominó Preto (1982);
Obras Completas de Florbela Espanca (1985-1986) (Rui Guedes);
Trocando Olhares (1994) (Maria Lúcia Dal Farra).

Vamos ao que mais interessa:
Começamos com a...

Trocando Olhares (1915-1917)

Dedicatória
É só teu o meu livro; guarda-o bem;
Nele floresce o nosso casto amor
Nascido nesse dia em que o destino
Uniu o teu olhar à minha dor!
    
Cantigas leva-as ao vento...
A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.

Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!

Num postal
Luar! lírio branco que se esfolha...
Neve, que do céu anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...

No Minho
Casitas brancas do Minho
Onde guardam os tesouros,
As fadas d’olhos azuis
E lindos cabelos loiros.

Filtros de beijos em flor,
Corações de namoradas,
Nas asas brancas do Minho
Guardam ciosas as fadas.

Que diferença!...
Quando passas a meu lado,
E que olhas para mim,
Tornas-te da cor de rosa,
E eu da cor do jasmim.

Vê tu que expressões dif’rentes
Da nossa mesma ansiedade:
A cor da rosa é despeito,
A palidez é saudade!

Os teus olhos
O céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura, que primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!

Verdades cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.

Hoje amam, amanhã ‘squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...

Súplica (I)
Digo pra mim
Quando ele passa:
Ave Maria
Cheia de Graça!

E quando ainda
Mal posso vê-lo:
Bendito Deus
Como ele é belo!

Embalada num sonho aurifulgente
Sei apenas que sonho vagamente,
Ao avistar, amor, teus olhos belos,

Em castelãs altivas, medievais,
Que choram às janelas ogivais,
Perdidas em românticos castelos!

Duas quadras
Não sei se tens reparado
Quando passeia, o luar
Pára sempre à tua porta
E encosta-te a chorar;

E eu que passo também
Na minha mágoa a cismar
Paro junto dele, e ficamos
Abraçados a chorar!
 "Procurando Florbela Espanca", de Manuela Pinheiro (pintora portuguesa). Disponível em: Sem pénis nem inveja (Veneno com açúcar).



[i] “Até a passagem do dia 7 para o dia 8 de dezembro de 1930 – data em que, ritualisticamente, Florbela se suicida no momento em que completa trinta e seis anos -, ela havia alcançado publicar, tão-somente às próprias custas, a pequena tiragem de duzentos exemplares para cada um dos seus dois volumes de poesia: o Livro de Mágoas, em 1919, e o Livro de Sóror Saudade, em 1953” (DAL FARRA, Maria Lúcia, 2005).
Obras Consultadas:
DAL FARRA, Maria Lúcia (Org.). Poemas de Florbela Espanca: estudo introdutório, organização e notas. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
ESPANCA, Florbela. As Máscaras do Destino.  São Paulo: Martin Claret, 2009. (Coleção a obra-prima de cada autor); 292).
 _______, Florbela. Contos e Diário. 1ª ed. Alfragide: BIIS: 2009.

sábado, 10 de março de 2012

2 - O Poeta e a Obra - Luciano José


Dois últimos livors publicados:
V(e)ia Poética e Conta-Gotas.
Nesta nova postagem trazemos "poesias curtas" do Poeta Luciano José, presentes nos livros: V(e)ia Poética e Conta-gotas.
Inicialmente em V(e)ia Poética: para o autor neste novo trabalho “o caráter disperso da criação poética continua acentuado. O recolhimento de coisas, cacos, ideias, conceitos, modos de ser e sentir que possam gerar ou desaguar em poesia está nitidamente presente. A simbiose com a música popular, o toque humorístico, o inesperado, a alusão ao erotismo, a metalinguagem e a condição humana sob o olhar filosófico-poético permanecem como marca registrada. É como se o caos tomasse forma para encontrar uma identidade mais acabada de caos.

V(e)ia Poética é a tentativa de construção de uma escrita literária que se funda na incerteza da caminhada, nas surpresas que a estrada pode proporcionar, no reconhecimento da casa fora dela, no estilo que se constrói como o não-estilo”.

Eis algumas das “Poesias Curtas”

OFÍCIO
Ócio, hora de ofício
Papel branco
À esperada ideia
Que teima em não chegar.

Negócio, criação
Invenção de ser poeta
Muito trabalho a exercer
Falta do que fazer
Fazer o tempo passar.

ROMPIMENTO
A caminhada ficou difícil...
Tudo estava bem,
Até que a sandália se rompeu.

REMÉDIO
A cabeça anda a mil
Com a dor de cotovelo que não passa
O chapéu protege-a do sol
Mas o dedo em riste insiste
É preciso apreciar sem moderação
Com a alma úmida, largado no chão
“Lázaro, levanta-te e anda”
Vai cuidar da vida
Curar a ferida
Recusar a solidão.

LAMENTO
Cansada da vida e da própria aparência,
tal prostituta, que trabalhou para caralho,
a barata olha no espelho e lamenta
não ter ainda se transformado em Kafka.

ALUADO
O pensamento à toa
Falava coisa sem nexo

Com um par de pão de fora na mão
Considerava-se um ser bastante complexo

No entanto,
Ao passar por um entulho
Jogou os pães e cantou:
Vem cear; o Mestre chama; vem cear...

BRINCADEIRA ININTERRUPTA
Para o balanço alto e com emoção
A criança requisita uma ajuda
Balança forte uma, duas, dez, vinte e duas...
A brincadeira não tinha fim
Exausto e indisposto,
Consegue lembrar:
Ela pagou-lhe com dinheiro imaginário.

VÍTIMA
Susto, pânico
Homem violento,
Carente, ofegante
De casa, distante
Parecia não ter saída
Diante da questão proposta:
Ou dá, ou morre!”
Não pensou duas vezes:
Escolheu a virgindade.

N(OVO)
O ovo
que precede o novo
estado de coisas que surge
e insurge rachando a casca

desafia a ordem,
desencadeia a desordem
e revela o mistério da origem

AS PORTAS
Era encantadora!!!
Como eu havia chegado a essa conclusão?
Não sei.
Lembro apenas que tive de passar por duas portas:
a do olhar e a do sorriso.

ANTROPOFAGIA
Andava a esmo, tateando,
enjoado de nozes;
Depois de mil e uma doses,
Falou:

“Na falta de terrorismo,
vai tu mesmo!”

INSACIÁVEL
Ela nua, toda sua
Pintou o sete
Fez um oito no coito

Ele contente, ela ainda carente
Como criança que pede mingau,
Levemente sussurra:
“Passa a mão
pra eu passar mal!”

DISTRAÇÃO
Não me lembro
Quando meu membro
Rompeu o hímen

Não consigo ter ato falho
Com a cara da sua vagina
Engolindo meu caralho.

DO POETA AO LEITOR
Ate-me, não ligue!
Acolha-me a seu lugar comum
Separe-me e junte-me um a um
Até que o suficiente de mim
Possa suprir sua carência de...
Oferecendo-lhes plenos poderes para ir
Além do que se possa imaginar

ENJOO
Depois que fui morar na fazenda,
A utopia chegou ao fim

Passou o deleite
De mergulhar em rios de leite

Superou o desejo
De mastigar montanhas de queijo

CONVITE VERBAL
Vou te chamar pra ver
A noite, o mar, o luar
Navegar o céu aberto
Explorar, conquistar, colonizar
Sem querer fazer poesia
Fazer amor, fazer orgia, fazer doer
Conjugar o verbo amar
Com os pulmões cheios de ar
Maravilha poder sentir o teu prazer
Poder gozar

FOLIA
Rala-bucho arretada
Fole fazendo festa
Suor que cai da testa
Comigo come tampado
Não fique aperreado
No salão ta tudo assim
Gente feia, farnezim
De dançar estava torto
Quem não mexia era morto
Tripa, caldinho e gim.

JOSÉ, Luciano. V(e)ia Poética. – São Paulo: Baraúna, 2009.

Diz ele, dentre outras considerações: “os poemas nascem, às vezes, como pingos de conta-gotas: insignificantes no oceano intransponível da página, mas com um poder só dele de pensar coisas tão complexas como o compromisso da poesia ou o encontro/desencontro do homem com as coisas criadas por ele mesmo (...). Por fim, um aviso aos navegantes: antes de avistarem novas terras não se esqueçam de usar seus colírios com os respectivos conta-gotas”.
  
Eis mais algumas das “pequenas poesias”:

COMPROMISSO
O poema deve ser provocador,
fazer a indiferença tomar um susto,
correr léguas

O poema deve revisitar a vida
e reconstruí-la em palavras,
sem trégua.

LUTA INGLÓRIA
Uma palavra atrapalha,
soa ruim
A outra não vem,
foge de ti
A imagem é boa,
não consegue traduzir

Desista:
a lixeira
é logo ali!

NASCIMENTO
“É isso,
vamos ter um filho!”

Informações genéticas ateias
Esterilidades a parte

Conjugaram-se palavras
A oração se fez

Somos todos filhos de uma puta,
de uma puta ideia.

UM CARA
Dispara contra o sol
Soldado insano
Pensando apagar tudo
Com um simples tiro.

CONVICÇÃO
Com a cirurgia bem sucedida
Jogou fora a antiga carteira de identidade
Saudade já não existe
de imaginar as moças despidas
em sua frente

FLAGRANTE COTIDIANO
O grunhido do porco
pouco interferia
no grito ensurdecedor
do Policarpo
que tombava morto
em uma rua
da periferia

AMEAÇA IMINENTE
No desequilíbrio orgânico
de um país tropical
Muitos praticam dieta forçada,
Contas engordam ao léu

LIMITE
Entre o latifúndio e os famintos
Uma cerca silenciosa
Estabelece a justiça

Artefato
Pocket calculator
Leitor digital
Pacto com o produto
Bruto, marginal
Nike, mountain bike
Que mal tem subir, pedalar,
cair do kayak
Malte, Microsoft
Sofre por não estar na rede
ipod fode o celular

RECADO
Na fila do posto de saúde...
a saúde mandou lembrança

DILEMA
Santo de casa
é quem pinta e borda lá fora
e retorna para sua ingênua mulher
ou é a própria mulher?

Dormir no ponto
é ser passado para trás
ou não conseguir acordara tempo?

DESACORDO
Assim como
a gostosa do pedaço
não é para a pica de qualquer um

o sutiã não é parapeito de janela

CARÊNCIA
Na lotação lotada
a dama faminta ignora
se junto aos outros
algo rígido satisfaz
seus desejos ocultos.

DST
Aparentemente nada demais
O visual era bom à beça

Fiquei chateado, nervoso
Quando soube...

Aquela doença venérea
Quase me fez perder a cabeça

DOMADOR
Fera atrevida
Jeito difícil

Domada, sem saída
Cumpri meu ofício

Deitou-se a bela
Dei doce a ela

HABITAÇÃO
De taipa,
nos cafundós dos Judas,
com chão de terra batida

Na parede impregnada de insetos,
a tubiba fazia festa
na casa dos cambembes

CERTEZA
Em pleno deserto
Observa o quanto é inútil
Livrar-se da chuva

CONTRAPARTIDA
É na garrafa
que entorpeço sonhos,
embriago pesadelos
até encarar lúcido
a transparência irretocável
do espelho.

HAVIA
Solar.
Havia energia
Energia solar havia
Só lá havia energia solar

VINGANÇA
Se ele come
as criaturas que gera

A ideia é comprar
um grande relógio
e encostá-lo na parede.

JOSÉ, Luciano. Conta-gotas. – São Paulo: Baraúna, 2011.

Entre tantas outras que merecem ser lidas. Conheça a obra já carimbada de Luciano José!

A poesia de Luciano José é daquelas que desperta em nós (repentinamente) uma vontade de ler; de ter um livro de literatura ao nosso alcance para podermos "viajar" sem sair do lugar; é uma literatura sem a preocupação com o elitismo, porém, suficientemente caprichosa e sábia. É uma poesia que permite-nos uma leitura descontraída: quantas vezes ao meio ou ao fim de uma poesia [uma risada] no canto da boca (Ela nua, toda sua; Pintou o sete; Fez um oito no coito); lábios que reproduzem um sentimento que se cria na imaginação, ao decifrar as palavras e os conceitos presentes nas poesias de Luciano José, um poeta de Palmeira dos Índios - AL, Brasil.

Há neste Blog outra postagem anterior sobre Luciano José e as ditas "poesias curtas", mostrando seus dois primeiros trabalhos: "Intromissão do Poema" e "Grãos de Versos".

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