ASSIS, Machado de (1839-1908). Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro - São Paulo - Fortaleza, ABS Editora, 2005, 202 p.
“Afrânio
Coutinho (...) afirma que a obra de Machado de Assis é fundamentada sobre três
grandes motivos: o humorismo, a tragicidade e a simbologia. Acrescentamos mais
um motivo: o sensualismo, velado e sugerido, intimamente ligado ao simbólico”
(p. 5).
“Brás
Cubas é em verdade um vivo morto, contando sua história de morte simbólica. As
ocorrências do livro são metaforicamente póstumas, porque se prendem a essa
morte simbólica de Brás Cubas, à sua morte moral” (p. 5).
“Machado
de Assis, em toda a sua obra da maturidade, utiliza-se de personagens que
representam as pessoas do mundo, e estas, por sua vez, são produtos da Vida,
isto é, de uma dessas entidades. Entre essas pessoas está o leitor, de quem
zomba tanto através de Brás Cubas, desde a ameaça de dar-lhe piparote[1]
até chamá-lo de obtuso[2]”
(p. 7).
“Com
sua mão de mestre, o autor nos oferece, em seu romance, uma experiência dos
homens e da vida, escrevendo uma verdadeira obra-prima pela perfeição
artística” (p. 7).
“Ao
verme que primeiro roeu as minhas frias carnes do meu cadáver dedico como
saudosa lembrança estas memórias póstumas” (oferecimento).
“Trata-se,
na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre
de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens
do pessimismo. Pode ser. Obra de finado” (p. 11) (Ao leitor).
“A
obra em si mesma é tudo: se agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te
agradar, pago-te com piparote, e adeus” (p. 11) (Ao leitor).
1-ÓBITO DO
AUTOR:
“Suposto
o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a
adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor
defunto, mas um defunto autor, para quem a campa[3]
foi outro berço; a segunda é que o escritor ficaria assim mais galante e mais
novo” (p. 13).
“Expirei
às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha
bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos,
era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério
por onze amigos” (p. 13).
“Nem
o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos
sessenta e quatro anos, não parece que reúne em si todos os elementos de uma
tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo.
De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a
triste senhora mal podia crer na minha extinção” (p. 14).
“Juro-lhes
que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De
certo ponto em diante chegou a ser deliciosa” (p. 14).
“Morri
de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia
grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor não creia, e
todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo”
(p. 14/15).
2-O EMPLASTO:
“Com
efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia
no trapézio que eu tinha no cérebro” (p. 15).
“Essa
idéia era nada menos que a invenção de um medicamente sublime, um emplasto
anti-hipocondríaco[4],
destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade” (p. 15).
“O
que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais,
mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas de remédio, estas três
palavras: Emplasto Brás Cubas” (p.
15).
“Assim,
a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público,
outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de
nomeada. Digamos: - amor da glória” (p. 15).
3-GENEALOGIA:
“O
fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira
metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde
teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria” (p.
16).
“Meu
pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai,
varão digno e leal como poucos” (p. 16).
4-A IDÉIA FIXA:
“A
minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te
livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um arqueiro, antes uma trave no olho”
(p. 17).
“Todavia,
importa dizer que este livro é escrito com pachorra[5],
com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra
supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo
brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem relega, e é
todavia mais do que passatempo e menos do que um apostolado” (p. 17).
5-EM QUE APARECE
A ORELHA DE UMA SENHORA:
“Senão
quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em
cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no
cérebro; trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes” (p. 18).
“No
outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente, sem médico, nem
cuidado, nem persistência, tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade”
(p. 18).
“(...)
me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa
entre as contemporâneas suas, a anônima do primeiro capítulo, a tal, a cuja
imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso (...). Imagine o leitor que nos
amamos, ela e eu, muitos anos antes e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar[6]
à porta da alcova...” (p. 18/19).
6-CHIMÈNE, QUI
L’EÙT DIT? RODRIGUE, QUI L’EÙT CRU?:
“(...)
pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem ânimo de
entrar, ou detida pela presença de um homem que estava comigo” (p. 19).
“Quem
diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia
ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela
vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. Virgília
tinha agora a beleza da velhice, um ar austero[7]
e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela última vez, numa festa
de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam
os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata” (p. 19/20).
“(...)
para cortar dúvidas, virei para o Nhonhô. (...) Vieram juntos, dois dias
depois, e confesso que, ao vê-los ali, na minha alcova, fui tomado de um
acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz”
(p. 20).
“Virgília
estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito,
nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de
espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras” (p.
21).
7-O DELÍRIO:
“(...)
é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante a uns vinte a
trinta minutos. Primeiramente tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo,
destro, escanhoando[8] um
mandarim[9],
que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos; caprichos de mandarim” (p.
21).
“Logo
depois senti-me transformado na Summa
Teológica de S. Tomás, impressa num volume, e estampas; idéia esta que me
deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as
minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as
descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um
defunto” (p. 21).
“Ultimamente,
restituído à forma humana vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou” (p. 21).
“Fiquei
vexado e aturdido[10].
A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a
condução violenta, e o resultado impalpável” (p. 22).
“Enquanto
assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos
pés, até que o animal estancou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de
mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura de neve, que desta vez
invadia o próprio céu, até ali azul” (p. 22).
“O
silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das
coisas ficara estúpida diante do homem. (...) sei que um vulto imenso, uma
figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes[11]
como o sol” (p. 22/23).
“(...)
a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se
fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. (...)
Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude,
mescla de força e viço, diante da qual me sentia eu o mais débil[12]
e decrépito[13]
dos seres” (p. 23).
“Entendeste-me?
(...) Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou
sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma
concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger
nem palpar” (p. 23).
“Que
mais queres tu, sublime idiota? Viver somente, não te peço mais nada. Quem me
pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque tua
hás de golpear a ti mesma, matando-me?” (p. 24).
“Arrebatou-me
ao alto de uma montanha” (p. 24).
“Tal
era o espetáculo, acerbo[14]
e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma
intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a
ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a
condensação viva de todos os tempos” (p. 25).
“Aí
vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada
e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a
riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo,
como um farrapo” (p. 25).
“Então
o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de
uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável,
outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a
agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera[15]
da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda,
e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio[16],
e sumia-se, como uma ilusão” (p. 25).
8- RAZÃO CONTRA
SANDICE:
(...)
9-TRANSIÇÃO:
“E
vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste
livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu
grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe
nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço ao dia 20 de outubro de
1805, em que nasci” (p. 27/28).
10-NAQUELE DIA:
“Nasci;
recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de
ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos” (p. 28).
“Meu
pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e alçava-me ao ar, como
se intentasse mostrar-me à cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me
parecia com ele, se era inteligente, bonito...” (p. 29).
“Sei
que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recém-nascido, e que durante as
primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa”. (...) “Se não conto
os mimos, os beijos, as admirações, as bênçãos, é porque, se os contasse, não
acabaria mais o capítulo” (...) “Item, não posso dizer nada do meu batizado,
porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais
galhardas[17]
festas do ano seguinte” (p. 29).
“Comecei
a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a
natureza, obrigavam-me cedo a agarrar às cadeiras, pegavam-me da fralda,
davam-me carrinhos de pau” (p. 29/30).
11-O MENINO É PAI DO HOMEM:
“Um
poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns
lineamentos o menino.” Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino
diabo’, e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu
tempo, arguto[18],
indiscreto, traquinas e voluntarioso” (p. 30).
“Prudêncio,
um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão,
recebia um cordel[19]
nos queixos, à guisa de ferro, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão,
fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, - algumas vezes
gemendo, - mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – ‘ai, nhonhô!’
– ao que eu retorquia: - ‘Cala a boca, besta!’” (p. 30)
“Não
se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça
dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo
contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os
chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleira” (p. 30/31).
“De
manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me
perdoasse, assim, como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a
noite fazia uma grande maldade, e meu pai, passando o alvoroço, dava-me
pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro! (p. 31).
“Sim,
meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito
coração, assaz[20]
crédula, apesar de abastada; temente às trovoadas e ao marido. O marido era a
Terra e o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha
educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e,
em partes, negativa” (p. 31).
“Vejamos
os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida galante, conversa
picaresca[21]”
(...) Não me respeitava a adolescência, como não respeitava a batina do irmão;
com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso[22]”
(p. 31).
“As
pretas (...) iam ouvindo e redargüindo[23]
às pilhérias[24]
do tio João, e a comentá-las de quando em quando com esta palavra: - Cruz,
diabo!... Esse sinhô João é o diabo!” (p. 32).
“Bem
diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes,
contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito
medíocre” (p. 32). (...) Cônego foi a única ambição da sua vida; e dizia de
coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, servo nos
costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno,
possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamente da
força de as incutir, de as impor aos outros” (p. 32).
“Não
digo nada de minha tia materna, Dona Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais
autoridade tinha sobre mim; essa diferenciava-se grandemente dos outros; mas
viveu pouco tempo em nossa companhia, uns dois anos” (p. 32).
12-UM EPISÓDIO
DE 1814:
(...)
13-UM SALTO:
“Unamos
agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde
aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer
diabruras[25],
os nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício e ociosos” (...) “Tinha
amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas,
e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda
assim...” (p. 37).
“Vamos
de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu primeiro
cativeiro pessoal” (p. 38).
“14-PRIMEIRO
BEIJO:
“Tinha
dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer o bigode”
(...) “Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma
criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um
lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote
nas mãos e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o
corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval,
para dar com ele nas ruas do nosso século” (p. 38/39).
“De
todas porém a que me cativou logo foi uma...uma...não sei se diga; este livro é
casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo” (...). “A que me cativou
foi uma dona espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os
rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes” (p. 39).
“Era
boa moça, lépida[26],
sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que não lhe
permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos[27]
e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano,
morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, - uma pérola”
(p. 39).
“Vi-a,
pela primeira vez, no Rossio Grande (...), logo que constou a declaração da
independência. (...) Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância,
com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa[28]
e vistosa, um corpo esbelto”. (...) E eu segui-a, tão pajem como o outro (...).
A meio caminho, chamaram-lhe, “linda Marcela”; lembrou-me que ouvira tal nome a
meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto”. (p. 39).
“Três
dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças,
nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela” (...); à saída, à porta da rua,
disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subi nas escadas.” (...)
“Ela ia abrir-me caminho para tornar à saída; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a
para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se
chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um
tufão, e incerto como um ébrio[29]”
(p. 40).
15-MARCELA:
“Gastei
trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o
corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso”
(p. 40).
“Afirmo-lhes
que o asno foi digno do corcel, - um asno de Sancho deverás filósofo, que me
levou à casa dela, no fim do citado período; apeei-me, bati-lhe na anca e
mandei-o pastar” (p. 40).
“-Em
verdade dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jóia; em
verdade, você quer brigar comigo... Pois isto é coisa que se faça... um
presente tão caro... E, se era jóia, dizia isto a contemplá-la em si, a rir, e
a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando,
derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim”
(p. 41).
“Nunca
o desejo era razoável, mas um capricho puro, uma criancice, vê-la trajar de
certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a passeio
ou outra coisa assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira” (p. 43).
16-UMA REFLEXÃO
IMORAL:
(...)
17-DO TRAPÉZIO E
OUTRAS COISAS:
“Marcela
amou-se durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo
que deveras, achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil. (...)
Vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra;
quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno[30].
E como eu fizesse um gesto de espanto; - Gatuno, sim senhor, não é outra coisa
um filho que me faz isso...” (p. 43/44).
“Desta
vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.” (...) “Eu ouvi-o calado, e
nada opus à ordem de viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de
levar Marcela comigo.” – “Não posso, disse ela com ar dolente[31];
não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto
por Napoleão...” (p. 44).
“Ficando
a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um
monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao
menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos
gestos descompostos” (p. 44).
“Tive
ímpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a meus pés. Ia
talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela,
contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses de nossa felicidade
solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão com a
cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante,
desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse...” (p. 44).
“-Não
me aborreça, disse. Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, caminhou
para a alcova[32].
- Sai desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais
excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar comigo” (p. 45).
“Então
resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e
deleitava-me com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de
saudades e remorsos” (p. 45).
“Enfim,
tive uma idéia salvadora... (...) como a do emplasto (...). Era nada menos que
fasciná-la, fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe
por meio mais concreto do que a súplica. Não medi as conseqüências: recorri a
um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei a melhor jóia da
cidade, três diamantes grandes, encastoados num pente de marfim; corri à casa
de Marcela” (p. 45).
“Vem
comigo, (...) arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que
quiseres... Olha, toma. E mostrei-lhe o pente com os diamantes” (p. 45).
“Olhou
para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se
dominado. (...) Doido! Foi a sua primeira resposta. A segunda foi puxar-me para
si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou
o pente, admirou muito a matéria e o lavor[33],
olhando espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de repressão
“-Vens
comigo? Marcela refletiu um instante. (...) Vou. Quando embarcas? Daqui a dois
ou três dias. Vou” (p. 46).
18-VISÃO DE
CORREDOR:
“E
depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...”
(p. 46).
“Olhando
para a porta, vi três dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à
paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaram-me pelos braços,
meteram-me numa sege[34],
meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o da libré na boléia, e lá me
levaram à casa do intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera[35]
que devia seguir para Lisboa” (p. 47).
“Três
dias depois segui barra fora, abatido e mudo. (...) Tinha uma idéia fixa...
Malditas idéias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo
o nome de Marcela” (p. 47).
19-A BORDO:
“Éramos
onze passageiros, um homem doido (...), dois rapazes que iam a passeio, quatro
comerciantes e dois criados” (p.
47).
“Não
sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto, ou se meu pai o
pôs de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda
a parte. (...) Eu não sabia nem pensava nada. O mundo para mim era Marcela” (p.
47).
“Os
dias passavam, e as águas, e os ventos, e com eles ia...” (p. 49).
20-BACHARELO-ME:
“Adeus
amores! adeus, Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regime,
adeus! Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira
idade” (p. 51).
“E
foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade
esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem
por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os
anos de lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, -
principalmente de saudades” (p. 51).
“No
dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava
longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo
logrado[36],
ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me
dava a liberdade, dava-me a responsabilidade” (p. 52).
21-O ALMOCREVE:
(...)
22-VOLTA AO RIO:
“A
cabo de alguns anos de peregrinações, atendi às súplicas do meu pai: - ‘Vem,
dizia ele na última carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!’ Esta
última palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha mãe” (p. 54).
“Pois
deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros, a gôndola, os
versos do lord, as damas do Rialto,
deixei tudo, e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro” (p. 54).
23-TRISTE, MAS
CURTO:
“Meu
pai abraçou-me com lágrimas. – Tua mãe não pode viver, disse-me. (...) A
infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do
sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício. (...) Dona Eusébia e algumas
outras senhoras lá estavam também, não menos tristes e menos dedicadas” (p.
55).
“A
dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma,
sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira;
a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem
nunca. (...) Havia oito ou nove anos que nos não víamos” (p. 55).
“Longa
foi a angústia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que
me encheu de dor e estupefação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém”
(p. 55).
“Confesso
que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...” (p. 56).
24-CURTO, MAS
ALEGRE:
“Jamais
o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me
debruçara sobre o abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o
estímulo, a vertigem...” (p. 56).
“Talvez
espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha
mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na
vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças
obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos,
a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência” 9p. 56/57).
“hediondo
(...) na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como despregar-se,
despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de
ser” (p. 57).
“O
olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos
o território da morte; não digo que ele não se estenda por cá, e não nos
examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores
vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados” (p. 57).
25-NA TIJUCA:
“No
sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda, alguns livros,
roupa, charutos, um moleque, - o Prudêncio do capítulo 11, - e fui meter-me
numa velha casa de nossa propriedade” (p. 57).
“Renunciei
tudo, tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar
em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro
inebriante e sutil” (p. 57/58).
“Às
vezes caçava, outras dormia, outras lia, - lia muito, - outras enfim não fazia
nada; deixava-me atoar de idéia em idéia, de imaginação, como uma borboleta
vadia ou faminta” (p. 58).
“Um
dia, dois dias, três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra,
era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício” (p. 58).
26-O AUTOR
HESITA:
“Súbito
ouço uma voz: - Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pai, que chegava com
duas propostas na algibeira. Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço” (p. 59).
“Demais
trago comigo uma idéia, um projeto, ou... sim, digo-te tudo; trago dois
projetos, um lugar de deputado e um casamento” (p. 60).
“Uma
parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição política
eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me
aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, das afeições, da
família...” (p. 60).
“Virgílio!
exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília” (p. 61).
27-VIRGÍLIA?
“Virgília?
Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois? (...) Era bonita, fresca,
saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o
indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto
Virgília, e era clara, muito clara, faceia, ignorante, pueril, cheia de uns
ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou talvez
medo; creio que medo” (p. 61/62).
28-CONTANTO
QUE...:
“(...)
fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto
a examinar as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que... (...)
Contanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser
separadamente homem casado ou homem público...” (p. 62).
“Todo
homem público deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. (...) A
noiva e o parlamento são a mesma coisa... isto é, não... saberás depois... Vá;
aceito a dilação, contanto que...” (p. 62/63).
29-A VISITA:
“Aceito-os;
meu pai deu-me dois fortes abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim,
reconhecia” (p. 63).
“Eu,
na tarde desse mesmo dia, fui visitar Dona Eusébia. Achei-a a repreender um
preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um alvoroço, um prazer
tão sincero, que me desacanhou logo” (p. 63).
“Dona
Eusébia começou a falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades,
que me cativou logo, posto me entristecesse” (p. 64).
30-A FLOR DA
MOITA:
(...)
31-A BORBOLETA
PRETA:
(...)
32-COXA DE
NASCENÇA:
“Saímos
à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia
coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé”
(p. 67).
“Não,
senhor, sou coxa de nascença” (p. 68).
“Tratei
de apagar os vestígios de meu desazo; - não me foi difícil, porque a mãe era,
segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo.
Vimos toda a chácara, árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma
infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu,
de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia” (p. 68).
33-BEM
AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM:
“O
pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura
tão senhoril; e coxa!” (p. 68).
“Amanheceu
chovendo, transferi a descida; mas ao outro dia, a manhã era límpida e azul, e
apesar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o
fim da semana” (p. 68).
“O
senhor desde amanhã? disse-me ela no sábado” (p. 69).
“Pretendo”.
– Não desça” (p. 69).
“Não
desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: - Bem - aventurados os que não
descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo
esse primeiro beijo de Eugênia, - o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe
tomara, e não furtado ou arrebatado, mas cordialmente entregue, como um devedor
honesto paga uma dívida” (p. 69).
34-A UMA ALMA
SENSÍVEL:
(...)
35-O CAMINHO DE
DAMASCO:
“Foi
na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte
manhã viria para baixo. – Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com
simplicidade; faz bem. – E como eu nada disesse, continuou: - Faz bem em fugir
ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente,
engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os
santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e
muito” (p. 70).
“Quis
retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império.
Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco
satisfeito” (p. 70/71).
36-A PROPÓSITO
DE BOTAS:
(...)
37-ENFIM!
“...perguntei
ao meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento. – Nenhum ajuste. Há
tempos conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de
te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e
creio que o fará. Quanto à noiva, é o nome que deu a uma criaturinha, que é uma
jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... é a filha dele; imaginei que, se
casasse com ela, mais depressa serias deputado” (p. 72).
38-A QUARTA
EDIÇÃO:
“Entro
na primeira loja que tinha à mão; era um cubículo, - pouco mais, - empoeirado e
escuro.” Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher. (...) Essa
mulher era Marcela” (p. 73).
“Não
a conheci logo; era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra.
Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia
triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instinto da
vaidade, que não durou mais de um instante” (p. 73).
“-
Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão. Não respondi nada.
(...) Deu-me uma cadeira e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da
vida que levara, das lágrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos
desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que
ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência” (p. 73).
“-
Casou? disse Marcela no fim da minha narração. – Ainda não, respondi secamente”
(p. 73).
39- O VIZINHO:
(...)
40-NA SEGE:
(...)
41-ALUCINAÇÃO:
(...)
42-QUE ESCAPOU A
ARISTÓTELES:
(...)
43-MARQUESA,
PORQUE EU SEREI MARQUÊS:
“Então
apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais
elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou
Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto
verdadeiramente cesariano. (...) Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse
outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes
influências. Cedi; tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois,
Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro” (p. 78).
“Virgília
replicou: - Promete que algum dia me fará baronesa? – Marquesa, porque eu serei
Marquês. Desde então fiquei perdido” (p. 78).
44-UM CUBAS:
“Meu
pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra
coisa” (P. 79).
“Mas
eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar
facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do
desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo. Morreu
daí a quatro meses, - acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e
contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os
reumatismos e tosses” (p. 79).
“Morreu
alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois
filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder
valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram
muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu” (p. 79/80).
45-NOTAS:
(...)
46-A HERANÇA:
“Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte
de meu pai, - minha irmão sentada num sofá, - pouco adiante, Cotrim, de pé,
encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode, - eu a
passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo
silêncio” (p. 80).
“Que é lá? redargüi; não cedi coisa nenhuma, nem
cedo. – Nem cede? Abanei a cabeça. – Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido;
vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que falta. – Não
falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é
muito mais sumário citar-nos o juízo e provar com testemunhas que Sabina não é
sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus” (p. 81/82).
“Meu tio cônego apareceu à sobremesa, e ainda
presenciou uma pequena altercação. – Meus filhos, disse ele, lembrem-se de que
meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos” (p. 82).
“Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós
estávamos brigados” (p. 82).
“Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum
baile, ou teatro, ou palestra, mas a mor parte do tempo passei-a comigo mesmo”.
(...) “Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as
folhas públicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta”
(p. 83).
48-UM PRIMO DE VIRGÍLIA:
“Sabe quem chegou ontem de São Paulo? perguntou-me
uma noite Luís Dutra” (p. 83).
49-A PONTA DO
NARIZ:
(...)
50-VIRGÍLIA
CASADA:
“Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília,
casada com Lobo Neves, continua Luís Dutra” – Ah! – E só hoje é que eu soube uma
coisa, seu maganão... – Quem foi? – Você quis casar com ela. – Idéias de meu
pai. Quem lhe disse isso? – Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então
contou-me tudo” (p. 85).
“No dia seguinte (...) vi assomar, a distância, uma
mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a
tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos;
ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima,
fiquei atônito” (p. 85).
“Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que
chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas, noutro baile (...) Valsamos; não
nego que, ao conchegar meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma
singular sensação de homem roubado” (p. 86).
“Cerca de três semanas depois recebi um convite dele
para uma reunião íntima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: -
o senhor hoje há de valsar comigo” (...) Creio que nessa noite apertei-lhe a
mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la, e
todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam... Um
delírio” (p. 86).
51-É MINHA!
“É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro
cavalheiro. (...) É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa” (p. 86).
“Arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa
redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra” (p. 86).
“Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o único
meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei uma carta
ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios ao
seu alcance, fizesse devolvê-lo, às mãos do verdadeiro dono” (p. 87).
“Exprimindo assim o benefício que me daria na vida e
na morte o simples ato da restituição” (p. 87).
“Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a
lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma
janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral posa arejar continuamente a
consciência” (p. 87/88).
52-O EMBRULHO
MISTERIOSO:
“Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a
Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia” (...) “Relancei os olhos
em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, - um
pescador curava as redes ainda mais longe, - ninguém que pudesse ver a minha
ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui” (p. 88)
“A curiosidade estava aguçada, como deve estar a do
leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de
cinco contos de réis. (...) Cinco contos em boas notas e moedas, tudo
asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo” (p. 88).
“Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei
o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados, materiais a respeito de cinco contos, -
eu, que era abastado” (p. 88/89).
“De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana
pensei menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito
quietinhos na gaveta da secretária” (p. 89).
“Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem
desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem” (p. 89).
“Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas
depois, hei de empregá-los em alguma boa ação, talvez um dote a alguma menina
pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...” (...) “Nesse mesmo dia levei-os
ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da
meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu
conhecimento” (p. 89).
“53-......:
“Virgília é que já se não lembrava da meia dobra;
toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu
pensamento; - era o que dizia, e era verdade” (p. 90).
“Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a
flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu,
trêmula, - coitadinha, - trêmula de medo, porque era ao portão da chácara” (p.
90).
54-A PÊNDULA:
“Saí dali a saborear o beijo” (p. 90).
55-O VELHO
DIÁLOGO DE ADÃO E EVA:
(...)
56-O MOMENTO
OPORTUNO:
“Um dia vimo-nos, tratamos o casamento,
desfizemo-nos e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão
nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a
vê-la damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos o amar um ao outro com
delírio” (...) Quem me explicará a razão dessa diferença?” (...) A razão não
podia ser outra senão o momento oportuno” (p. 92).
57-DESTINO:
“Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como
explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia, depois
de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha
remorsos, é porque não me tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos
braços, murmurando: - Amo-te, é a vontade do céu. (...) E esta palavra não
vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa” (p. 93).
“Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame
de crer, e que a sua religião era uma espécie de flanela preventiva e
clandestina, mas evidentemente era engano meu” (p. 93).
58-CONFIDÊNCIA:
(...)
59-UM ENCONTRO:
“Esta
idéia, rútila e grande, - trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, -
esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos
nela, a achar-lhe graça” (p. 95).
“E
Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim
uma cara, que não me pareceu conhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse” (p. 95).
“-Sou
o Borba, o Quincas Borba (...). Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro
tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e abastado Quincas Borba.
(...) Os olhos tinham um resto de expressão de outro tempo, e o sorriso não
perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar” (p. 96).
“Não
havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a
miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava
os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente. – Procure-me,
disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa. Um sorriso magnífico lhe abriu os
lábios. (...) - Olhe que ainda hoje não almocei. – Não? – Não, saí muito cedo
de casa” (p. 96).
“Tirei
a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis (...) e dei-lha. (...) E depois
beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão radiosa expansão, que me
produziu um sentimento misto de nojo e lastima. (...) – Pois está em suas mãos
ver outras muitas, disse eu. – Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. –
Trabalhado, conclui eu. Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes,
depois disse-me positivamente que não queria trabalhar” (p. 97).
60-O
ABRAÇO:
“(...)
não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora,
entristece-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da
realidade de outro tempo... (...) Meto a mão no colete e não acho o relógio.
Última desilusão! o Borba furtara-mo no abraço” (p. 98).
61-UM
PROJETO:
“Jantei
triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do
furto, e as reminiscências de criança, e outra vez a comparação, e a
conclusão... (...) Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para
escapar às opressões do passado, porque o encontro com o Quincas Borba
tornara-me aos olhos do passado, no qual fora deveras, mas um passado roto,
abjeto, mendigo e gatuno” (p. 98).
“Saí
de casa, mas era cedo; iria achá-los à mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba
(...), a idéia de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já
não o achei. Indaguei do guarda; disse-me efetivamente: ‘esse sujeito’ ia por
ali às vezes. (...) A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao
respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar,
uma elevação, uma admiração de mim próprio.... Nisto caía a noite; fui ter com
Virgília” (p. 99).
62-O
TRAVESSEIRO:
“(...)
depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu espírito,
um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas”.
(...) que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um
travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir? (p. 99).
63-FUJAMOS!
“(...)
Três semanas depois, indo à casa de Virgília,
- eram quatro horas da tarde, - achei-te triste e abatida. Não me quis
dizer o que era...” (p. 99).
“-Creio
que o Damião desconfia alguma coisa. noto agora umas esquisitices nele... Não
sei. Trata-me bem, não há dúvida, mas o olhar parece que não é o mesmo; (...)
aterrada, estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja ilusão, mas eu penso
que ele desconfia... Tranquilizei-a como pude, disse quer podiam ser cuidados
políticos” (p. 99-100).
“Virgília,
disse, eu proponho-te uma coisa. – Que é? – Amas-me? – Oh! suspirou ela,
cingindo-me os braços ao pescoço” (p. 100).
“Mas
o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e fito nela,
perguntei-lhe se tinha coragem. – De quê? – De fugir. Iremos para onde no for
mais cômodo, uma casa grande ou pequena, à tua vontade, na roça ou na cidade,
ou na Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não haja perigos
para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, ele pode
descobrir alguma coisa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... e ele
também, porque eu o matarei, juro-te” (p. 100-101).
“-
Não escaparíamos talvez; ele iria te ter comigo e matava-me do mesmo modo.
Mostrei-lhe que não. O mundo era assaz e vasto, e eu tinha os meios de viver
onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele não chegaria até lá (...)” (p.
101).
“Virgília
fez um gesto de espanto e quase indignação; murmurou que o marido gostava muito
dela. – Pode ser, respondi eu” (p. 101).
“(...)
Justamente, neste instante, apareceu na chácara o Lobo Neves. Não tremas assim,
leitora pálida; descansa, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de
sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhando de
uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele
entrou daí a três minutos” (p. 101).
“Virgília
sentara-se ao lado dele, pegou-lhe numa das mãos, compôs-lhe a gravata. (...) –
Janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves. – Veio para isso mesmo, confirmou a
mulher; diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro” (p. 102).
“Não
olhei uma só vez para ela durante o jantar; falei de política, da imprensa, do
mistério (...)” (p. 102).
64
– A TRANSAÇÃO:
“(...)
Virgília começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta ideia fez-me
sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquecê-la e a matá-la” (p. 103).
“No
dia seguinte, não me pude ter; fui cedo à casa de Virgília; achei-a com os
olhos vermelhos de chorar. – Que houve, perguntei. – Você não me ama, foi a sua
resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me
tivesse ódio” (p. 103).
“(...)
peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos. –
Acabou, acabou, disse eu” (p. 103).
“Não
tive ânimo de argüir, e, aliás, argüi-la de quê? Não era culpa dela se o marido
a amava. Disse-lhe que não me fizera coisa nenhuma, que eu tinha
necessariamente ciúmes do outro, que nem sempre o podia de cara alegre (...)”
(p. 103).
“-Você
é que nunca me teve amor. – Eu? – sim, é uma egoísta! prefere ver-me padecer
todos os dias... é uma egoísta sem nome! Virgília desatou a chorar, e para não
atrair gente, metia o lenço na boca (...). Inclinei-me para ela, travei-lhe dos
pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o
perigo; o terror apaziguou-a. – Não posso dizer, disse ela daí a alguns instantes,
não deixo meu filho; se o levar (...). Não posso, mate-me você, se o quiser, ou
deixe-me morrer...” (p. 104).
“Estava
ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um
doido, mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria. Virgília
enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois,
tornávamos ao assunto da casinha solitária, em alguma rua escura” (p. 104).
65
– OLHEIROS E ESCUTAS:
“Interrompeu-nos
o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X
(...). A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas
era impossível mostrar maior alvoroço” (p. 104).
“Chegando
à rua arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais
desconfiavam de nós. Cinqüenta e cinco anos que pareciam quarenta, macia,
risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas” (p. 105).
“A
segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta
invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma
asma não menos teimosa e de uma lesão de coração: era um hospital concentrado”
(p. 105).
“Havia
ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu agora desarmava à força de lhe
falar dos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. (...) eu curava-me
de felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca” (p. 105).
66
– AS PERNAS
“Ora,
enquanto eu pensava naquela gente, ia-me as pernas levando, ruas abaixo (...)”
(p. 106).
67
– A CASINHA:
“Jantei
e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que mandara o Lobo Neves,
embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a,
e tirei este bilhete: “Meu B... Desconfiam de nós; tudo está perdido;
esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz...
V...a” (p. 106).
“Foi
um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de
Virgília. Era tempo; estava arrependida (...). A baronesa disse-lhe francamente
que se falara muito, no teatro, na noite anterior; a propósito da minha
ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na
casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública” (p. 107).
“Vi
que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam
inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública (...). Talvez senti
alguma coisa semelhante a despeito; mas as emoções daqueles dois dias eram já
muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha” (p. 107).
“Agora
podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, enfim a presença
do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo
vulgar terminaria à porta” (p. 107).
68
– O VERGALHO:
(...)
69
– UM GRÃO DE SANDICE:
(...)
70
– DONA PLÁCIDA:
“Custou-lhe
muito a aceitar a casa (...). Ao menos, é certo que não levantou os olhos para
mim durante os primeiros dois meses; falava-me com eles, baixos, seria,
carrancuda, às vezes triste” (p. 110).
“Quando
obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com
Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do
marido, e não sei que outros toques de novela. Dona Plácida não rejeitou uma só
página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo
de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que Dona Plácida era
minha sobra” (p. 110).
71
– O SENÃO DO LIVRO:
(...)
72
– O BIBLIÔMANO:
(...)
73
– O LUNCHEON:
(...)
74
– A HISTÓRIA DE DONA PLÁCIDA:
“Dona
Plácida era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces
para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então ralava coco e fazia não sei que
outros trabalhos de doceira, compatíveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis
casou com um alfaiate, que morreu tísico algum tempo depois, deixando-lhe uma
filha” (p. 113).
“Trabalhava
muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candeeiro, para comer e não
cair. Emagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição, e continuou
a trabalhar” (p. 114).
“-
Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas
tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguém mais no mundo e
estava quase velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá;
boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa” (p. 114).
75
– COMIGO:
(...)
76:
O ESTRUME:
“Se
não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas
outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o
estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.
A consciência concordou, eu fui abrir a porta a Virgília” (p. 117).
77
– ENTREVISTA:
“Virgília
entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e os vexames
(...)”
“Agora,
porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e os vexames; as entrevistas
entravam no período cronométrico. A intensidade do amor era a mesma; a
diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para
constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos
casamentos” (p. 116).
78
– A PRESIDÊNCIA:
“Certo
dia, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar
uma presidência de província (...). Dias depois declarou á mulher que a
presidência era coisa definitiva, Virgília não pôde dissimular a repugnância
que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades políticas”
(p. 117).
“Virgília
ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa, à minha
espera; tinha dito tudo a Dona Plácida, que buscava consolá-la como podia: -
Você há de ir conosco, disse-me Virgília. – Está doida? Seria uma insensatez. –
Mas então...?” (117).
“Levantei-me,
atirei o chapéu a uma cadeira, e entrei a passear de um lado para outro, sem
saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada (...). Vendo que não
falava, olhei para ela. Virgília tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as
mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude da suprema
desesperança” (p. 118).
“-
Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu. Virgília quis
agarrar-me, mas eu já estava fora da porta”. (p. 118).
79
– COMPROMISSO
“Vacilava
entre um querer e um não querer (...). – egoísmo, suponhamos – que me dizia:
‘Fica, deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do
amor’ (...). E eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de
que a visita me levasse a compartir a responsabilidade da solução” (p.
118-119).
80
– DE SECRETÁRIO
“Na
noite seguinte fui efetivamente à casa de Lobo Neves; estavam ambos, Virgília
muito triste, ele muito jovial (...). Lobo Neves contou-me os planos que levava
para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as resoluções;
estava tão contente! tão esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler um
livro, mas por cima da página olhava-me de quando em quando, interrogativa e
ansiosa” (p. 119).
“-
Você é rico, continuou ele, não precisa de um magro ordenado; mas se quisesse
obsequiar-me, ia de secretário comigo. Meu espírito deu um salto para trás,
como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente,
imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... (...).
Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o
olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na
verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas
de um modo administrativo” (p. 120).
81
– A RECONCILIAÇÃO
“No
dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o espírito feito e resoluto a
aceitar a nomeação. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma
senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina. – Isto não pode
continuar assim, disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as
pazes. – Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei estentendo-lhe os
braços” (p. 120).
“Achei-a
mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de
trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento nenhum ressentimento. Olhávamos um
para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dois
namorados” (p. 121).
“Os
olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que
importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com
ternura, com sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era
um anjinho de cinco anos. – Entra, Sara, disse Sabina. Era minha sobrinha
(...). Nisso, aparece-me à porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada
menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me aos
braços do pai (...). Não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser
que tivesse uma curta interrupção, porque eu andava com idéias de uma viagem ao
Norte” (p. 121).
82
– QUESTÃO DE BOTÂNICA
“Continuei
a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma mulher, tinha confiança do
marido, ia por secretário de ambos, e reconcialiava-me com os meus” (p. 122).
83
– 13
“Cotrim
tirou-me daquele gozo, levando-me à janela. – Você quer que lhe diga uma coisa?
perguntou ele; - não faça essa viagem; é insensata, é perigosa”. (p. 123).
“(...)
Repito, não faça semelhante viagem; suporte a ausência, que é melhor, e evite
algum grande escândalo e maior desgosto... Disse isto, e foi para dentro. Eu
deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, - um antigo lampião de
azeite, - triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação” (p. 124).
“No
dia seguinte, abro uma folha política e leio a notícia de que, por decretos de
13, tínhamos sido nomeados presidente e secretário de província de *** o Lobo
Neves e eu. Escrevi imediatamente à Virgília, e segui duas horas depois para a
Gamboa (...); a objeção de Cotrim afligia-me.Virgília chegou daí a pouco,
lépida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou muito séria. – Que
aconteceu? – Vacilo, disse eu; não sei se devo aceitar... (...) Não é conveniente,
dá muito na vista... - Mas nós já não vamos. – Como assim? Contou-me que o
marido, ia recusar a nomeação, e por motivo que só lhe disse, a ela,
pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessá-lo a ninguém mais. – É pueril,
observou ele, é ridículo; mas em suma, é um motivo poderoso para mim.
Refletiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava
para ele uma recordação fúnebre” (p. 124-125).
84
– O CONFLITO
“Não
me confessou o marido a causa da recusa; disse-me também que eram negócios
particulares, e o rosto sério, convencido que eu o escutei, fez honra à
dissimulação humana” (p. 125).
85
– O CIMO DA MONTANHA
“Entre
a amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e
a mesma coisa lhe aconteceu a ela” (p. 126).
86
– O MISTÉRIO
(...)
87
– GEOLOGIA
“Sucedeu
por esse tempo um desastre; a morte do Viegas. Viegas passou aí de relance, com
os seus setenta anos, abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma
lesão de coração por quebra” (p. 127).
88
– O ENFERMO
(...)
89
– IN EXTREMIS
“Amanhã
vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado! não tem
ninguém... Viegas caíra na cama definitivamente (...). Virgília ia lá de quando
em quando. Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia ao pé
dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei. Viegas tossia com tal força que
me fazia arder o peito; no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa,
com um sujeito magro” (p. 130).
“-
Quarenta contos, não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta dos juros”
(p. 131).
“-
Então? disse o sujeito magro. Fiz-lhe sinal para que não insistisse, e ele
calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o teto, calado, a
arfar muito: Virgília empalideceu, levantou-se, foi até à janela. Suspeitara a
morte e tinha medo” (p. 131).
“-
Trinta e oito contos, disse ele. – Ahn?... gemeu o enfermo”. (p. 131).
“Teve
um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com grande
consternação do sujeito magro, que me confessou depois a disposição que estava
em oferecer os quarenta contos; mais era tarde” (p. 132).
90
– O VELHO COLÓQUIO DE ADÃO E CAIM
“Insinuei-lhe
que não devia pensar mais em semelhante negócio. O melhor de tudo era esquecer
o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de coisas alegres; o nosso
filho, por exemplo” (p. 132).
“Lá
me escapou a decifração do mistério, esse doce mistério de algumas semanas
antes, quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um
ser tirado do meu ser! (...) Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura
paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! (...)
Sentia-me homem” (p. 132-133).
“Esse
embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele
escrevia, ele valsava, ele era o interminável nos limites de uma quarto de hora
– baby e deputado, colegial e
pintalegrete. (...) Virgília sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu
já não lhe queria nada. A verdade é que estava em diálogo com o embrião; era o
velho colóquio de Adão e, Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a
vida, o mistério e o mistério” (p. 133).
91
– UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA
“Por
esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um objeto não menos
extraordinário (...)”. Meu caro Brás Cubas, Há tempos no passeio público,
tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com
esta carta. (...) Muitas coisas se deram depois do nosso encontro; irei
conta-las pelo miúdo, se não me fechar a porta. (...) Cedi o meu degrau da
escada de São Francisco; finalmente, almoço” (p. 133).
“É
singularmente espantoso este meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a
dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe
Humanismo, de Humanitas, princípio
das coisas. (...) até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do velho amigo
Joaquim Borba dos Santos” (p. 134).
“Li
esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta, contendo um bonito relógio
com as minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembrança do velho Quincas. (...) Naturalmente o Quincas Borba
herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a
primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que não se podem reaver
integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o
relógio, e esperei a filosofia” (p. 134).
92
– UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO
(...)
93
– O JANTAR
(...)
94
– A CAUSA SECRETA
“Virgília
(...) estava ao canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me
alegremente; mas quando lhe falei do nosso filho amuou-se. Não gostava de
semelhante alusão, aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais” (p.
136).
“Imaginei
também que a concepção seria um puro invento, um modo de prender-me a ela,
recurso sem longa eficácia, que talvez começava de oprimi-la. (...) Naquela noite
descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera
muito quando lhe nascera o primeiro filho” (p. 137).
95
– FLORES DE ANTANHO
“Uma
tarde, após algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o edifício das minhas
quimeras paternais. Foi-se o embrião, naquele ponto em que se não distingue
Laplace de uma tartaruga” (p. 137).
96
– A CARTA ANÔNIMA
“No
fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e
fechou-a com a mão trêmula” (p. 137).
“O
marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era anônima e
denunciava-nos. (...) limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e
acrescentava que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com
imaginação que era uma calúnia infame. (...) O marido respirou; mas, tornando à
carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo,
cada letra bradava contra a indignação da mulher” (p. 138).
“Instou
com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília compreendeu
que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência, jurou que da minha
parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. (...) e concluiu dizendo que,
para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá”
(p. 138).
“Ouvi
tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso
empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves,
mas pela tranqüilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto, de
saudades, e até de remorsos” (p. 138).
“Ela
batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa.
Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto” (p. 139).
97
– ENTRE A BOCA E A TESTA
(...)
98
– SUPRIMIDO
“Separamo-nos
alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anônima restituía à
nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom
que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao
teatro de São Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela arrancava
lágrimas” (p. 139).
“No
intervalo fui visitá-los. Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher
com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim” (p.
139).
99
– NA PLATÉIA
“Na
platéia achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falamos por alto, a
frio, constrangidos um e outro (...). Ele veio a mim, com muita afabilidade e
riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele,
que parecia o mais tranqüilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher;
respondeu-me que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos
gerais, expansivo, quase risonho” (p. 140).
100
– O CASO PROVÁVEL
(...)
101
– A REVOLUÇÃO DÁLMATA
(...)
102
– DE REPOUSO
(...)
103
– A DISTRAÇÃO
“Não,
senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz. Tinha razão Dona
Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a
sua dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora” (p. 143).
“Três
dias depois, estava tudo explicado. Suponho que, Virgília ficou um pouco
admirada, quando lhe pedi esculpa das lágrimas que derramara naquela triste
ocasião” (p. 144).
“Virgília
dizia-me uma porção de coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava
o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um
primor de cortesia e afeição” (p. 144).
“-
Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer?
Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que
quer acabar... –Justamente. Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula,
raivosa... - Adeus, Dona Plácida, bradou
ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a
pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou por
sair. (...) sentei-me ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras
humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância
de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa” (p. 145).
104
– ERA ELE
“Virgília
preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado três horas. Tudo estava esquecido
e perdoado. Dona Plácida, que espreitava a ocasião idônea para a saída, fecha
subitamente a janela e exclama: - Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de
Iaiá! O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor das
rendas do vestido, correu até a porta da alcova (...)”. Virgília tornou a si;
empurrou-me para a alcova, disse a Dona Plácida que voltasse à janela; a
confidente obedeceu” (p. 145-146).
“Era
ele. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo: - O senhor
por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor (...). Virgília que
estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da
fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pálido, frio, quieto, sem explosão,
sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala” (p. 146).
“-
Você vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos. – Vou” (p. 146).
“(...)
A nossa boa velha tagarelava demais; era um modo de disfarçar as tremuras do
corpo. Virgília, dominado o primeiro instante, tornara à posse de si mesma” (p.
146).
105
– EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS
“Dona
Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e
dei dois passos para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília do marido; foi
o que disse e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por um braço”
(p. 146-147).
“A
alcova foi uma janela fechada; eu abri a outra com gesto de sair, e respirei”
(p. 147).
106
– JOGO PERIGOSO
“Respirei
e sentei-me. Dona Plácida atroava a sala com reclamações e lástimas. Eu ouvia,
sem lhe dizer coisa nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado
Virgília na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior” (p. 147).
“(...)
eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis. Ao cabo, parecia-me
jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se era tempo de levantar e
espairecer” (p. 147).
107
– BILHETE
“Não
houve nada, mas ele suspeita alguma coisa; está muito sério e não fala; agora
saiu (...). Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita
cautela, por ora, muita cautela” (p. 148).
108
– QUE NÃO SE ENTENDE
“Quanto
a mim, se vos disse que li o bilhete três ou quatro vezes, naquele dia,
acreditei-o, que é verdade. (...) Nem então, nem ainda agora cheguei a
discernir o que experimentei. (...) Suponhamos que não disse nada” (p. 148).
109
- O FILÓSOFO
“Cuido
que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de coisas opostas,
desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e
mandá-los de presente a Aristóteles” (p. 150).
110
– 31
“Uma
semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Agarrei-me à
esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém,
a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a
substância diabólica” (p. 151-151).
111
– O MURO
“Eles
estavam prestes a embarcar. Entretanto em casa de Dona Plácida, vi um papelinho
dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgília; dizia que me esperava à
noite, na chácara, sem falta. E concluía: “o muro é baixo do lado do beco”” (p.
151).
“Fiz
um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal
pensada e até ridícula (...). Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do
lado do beco; e, quando ia a galgá-lo, via-me agarrado por um pedestre de
polícia, que me levava ao corpo da guarda” (p. 151).
“-
Diga-lhe que vou. – Aonde? perguntou Dona Plácida. – Onde ela disse que me
espera. (...) Dona Plácida arregalou os olhos: - Mas esse papel, achei-o hoje
de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que... (...) em verdade, um antigo bilhete
de Virgília, recebido no começo dos nossos amores, uma certa entrevista na
chácara, que me levou efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto”
(p. 152).
112
– OPINIÃO
“(...)
Poucas horas depois, encontrei Lobo Neves, na rua do Ouvidor; falamos da
presidência e da política” (p. 152).
“Ele
não podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separação
conjugal; teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução,
iguais sentimentos” (p. 152).
113
– A SOLDA
(...)
114
– FIM DE UM DIÁLOGO
(...)
115
– ALMOÇO
“Não
a vi partir; mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer,
uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses” (p. 154).
116
– FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS
“A
partida de Virgília deu-se uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em
casa, a fisgar as moscas (...). Era tudo: saudades, ambições, um pouco de
tédio, e muito devaneio solto. Meu tio cônego morrei nesse intervalo; item,
dois primos. Não me dei por abalado; levei-os ao cemitério, como quem leva
dinheiro a um banco” (p. 155).
“Outras
vezes agitava-me. Ia às gavetas, entornava as cartas antigos, dos amigos, dos
parentes, das namoradas, (até as de Marcela), e abri-as todas, li-as uma a uma,
e recompunha o pretérito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da
juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o
prazer de verte-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas
de sete léguas e longas barbas assírias, ao bailar ao som de uma gaita
anacreôntica. Guarda as tuas cartas da juventude!” (p. 155).
117
– O HUMANITISMO
“Duas
forças, porém, além de uma terceira, compeliam-me a tornar à vida agitada do
costume: Sabina e Quincas Borba. (...) Quando dei por mim estava com a moça
quase nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expôs-me enfim o Humanitismo,
sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas” (p. 156)
“-
Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o
princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que
parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o
estalar dos dedos de Humanistas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do
frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera” (p.
157-158).
“A
dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão. Quando a criança é ameaçada por
um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitui a base da
ilusão humana, herdada e transmitida” (p. 158).
“Quincas
Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de
cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas” (p. 158).
118
– A TERCEIRA FORÇA
(...)
119
– PARÊNTESIS
“São
bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto (...): -
Matamos o tempo; o tempo nos enterra” (p. 159).
120
– COMPELLE INTRARE
“-
Não, senhor, agora quer você queira, quer não, há de casar, disse-me Sabina.
Que belo futuro? Um solteirão sem filhos”. (...) A idéia de ter filhos deu-me
um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido misterioso. Sim, cumpria ser
pai” (p. 160).
121
– MORRO ABAIXO
“No
fim de três meses, ia tudo à maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os
desejos do pai, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimônio. A
lembrança de Virgília aparecia de quando em quando, à porta” (p. 161).
122
– UMA INTENÇÃO MUI FINA
(...)
123
– O VERDADEIRO COTRIM
(...)
124
– VÁ DE INTERMÉDIO
“Que
há entre a vida e a morte? Uma curta ponte” (p. 164).
125
– EPITÁFIO
(...)
126
– DESCONSOLAÇÃO
“Epitáfio
diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhã-loló, a morte, o
desespero da família, o enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da
febre amarela” (p. 165).
“(...)
doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando à direita e à esquerda,
levou também uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; não cheguei a
entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela morte” (p. 165).
“Se
não contei a morte, não conto igualmente a missa do sétimo dia. A tristeza do
Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruína. Quinze dias depois
estive com ele; continuava inconsolável, e dizia que a dor grande com que Deus
o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens. Não me
disse mais nada”. (...) Doze pessoas apenas, e três quartas partes amigos do
Cotrim, acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha. E ele fizera
expedir oitenta convites” (p. 165-166).
127
– FORMALIDADE
(...)
128
– NA CÂMARA
“(...)
Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um colega
que contava uma anedota, e outro, que tirava a lápis, nas costas de uma
sobrecarta, o perfil de orador” (p. 167).
129
– SEM REMORSOS
“(...)
não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado” (p. 168).
130
– PARA INTERCALAR NO CAPÍTULO 129
“A
primeira vez que pude falar a Virgília, depois da presidência, foi um baile em
1855. (...) Lembra-me que falamos muito, sem aludir a coisa nenhuma do passado.
Subentendia-se tudo” (p. 168).
131
– DE UMA CALÚNIA
(...)
132
– QUE NÃO É SÉRIO
(...)
133
– O PRINCÍPIO DE HELVETIUS
(...)
134
– CINQÜENTA ANOS
“Não
lhes disse ainda. – mas digo-o agora, - que quando Virgília descia a escada, e
o oficial de Marinha me tocava no ombro, tinha eu cinqüenta anos. Era portanto
a minha vida que descia pela escada abaixo, - ou a melhor parte, ao menos, uma
parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos, - capeada de dissimulação e
duplicidade, - mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual” (p.
171).
135
– OBLIVION
(...)
136
– INUTILIDADE
(...)
137
– A BARRETINA
“E
daí, não; ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba,
acrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras coisas tristes. Mas esse
filósofo, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando
na ladeira fatal da melancolia” (p. 172).
“Vamos
lá; façamo-nos governo, é tempo. Eu não havia intervindo até então nos grandes
debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, comissões e votos; e a
pasta não vinha. (...) Comecei devagar. Três dias depois, discutindo-se o
orçamento da Justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao
ministro se não julgava útil diminuir a barretina na guarda nacional. (...) A
Câmara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da
liberdade e da independência, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito,
freqüente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus, decretando um
uniforme leve e maneiro” (p. 173).
138
– A UM CRÍTICO
(...)
139
– DE COMO NÃO FUI MINISTRO D’ESTADO
(...)
140
– QUE EXPLICA O ANTERIOR
“Se
a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o
desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira na Câmara dos
Deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira política” (p.
175).
“Tudo
tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem: e, conquanto eu
estivesse na minha sala, olhando para
a minha chácara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus pássaros, ao pé dos meus livros, alumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das
saudades daquela outra cadeira, que não era minha” (p. 176).
141
– OS CÃES
-
“Mas, enfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me Quincas Borba, indo pôr a
xícara vazia no parapeito de uma das janelas. – Não sei; vou meter-me na
Tijuca; fugir dos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu
caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada” (p. 176).
“Para
distrair-me, convidou-me a sair; saímos para os lados do Engenho Velho. Íamos a
pé, filosofando as coisas. (...) A palavra daquele grande homem era o cordial
da sabedoria. Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a
tribuna, cumpria-me abrir um jornal. (...) Funda um jornal, disse-me ele, e
“desmancha toda essa igrejinha”” (p. 176).
“-
Magnífica idéia! Vou fundar um jornal, vou escachá-los, vou...” (p. 176).
“Daí
a pouco demos com uma briga de cães; fato que aos olhos de um homem vulgar não
teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dois. Notou
que ao pé deles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a
minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne” (p. 177).
“Nem
deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais
grandioso: as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros
manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a
inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os
séculos, etc.” (p. 177).
142
– O PEDIDO SCRETO
“(...)
Andando, disse-lhe que tinha uma dúvida; não estava bem certo da vantagem de
disputar a comida aos cães. Ele respondeu-me com excepcional brandura: -
Disputá-la aos outros homens é mais lógico, porque a condução dos contendores é
a mesma, e leva o osso o que for mais forte” (p. 177).
“(...)
Entramos, e o Quincas Borba, com a discrição própria de um filósofo, foi ler a
lombada dos livros de uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de
Virgília: Meu bom amigo, Dona Plácida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer
alguma coisa por ela; mora no Beco das Escadinhas; veja se alcança metê-la na
Misericórdia. (...) Não era a letra fina. e correta de Virgília, mas grossa e
desigual (...), era muito difícil atribuir-lhe a autoria” (p. 178).
143
– NÃO VOU
“Enquanto
ele restituía o livro à estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu
falava pouco, mastigava sem acabar de engolir. (...) – Tens alguma coisa;
aposto que foi aquela carta? – Foi. Realmente, sentia-me aborrecido,
incomodado, com o pedido de Virgília. Tinha dado a Dona Plácida cinco contos de
réis; duvido muito que ninguém fosse mais generoso do que eu, nem tanto. (...)
Tinha de ir lá, chamar a atenção dos vizinhos, bater à porta, etc. Que maçada!
Não vou” (p. 178).
144
– UTILIDADE RELATIVA
“Depois
do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um molho de ossos, envolto em
molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro.
No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia, onde ela morreu uma
semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual
entrara” (p. 180).
145
– SIMPLES REPETIÇÃO
(...)
146
– O PROGRAMA
“Urgia
fundar o jornal. Redigi o programa, que era uma aplicação política do
Humanitismo (...). Quincas Borba exigiu apenas uma declaração, autografa e
reservada, de que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do
livro dele, ainda inédito” (p. 180).
147
– O DESATINO
“Mandei
logo para a imprensa uma notícia discreta, dizendo que provavelmente começaria
a publicação de um jornal oposicionista, daí a algumas semanas, redigido pelo
Doutor Brás Cubas” (p. 181).
“No
dia seguinte entra-me em casa o Cotrim (...). Vira a notícia do jornal, e achou
que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante idéia. Era um erro,
um erro fatal. Mostrou que eu ia colocar-me numa situação difícil e, de certa
maneira trancar as portas do parlamento” (p. 181).
“-
É um verdadeiro desatino, repetiu ele; pense ainda alguns dias, e verá que é um
desatino. A mesma coisa disse Sabina, à noite, no teatro” (p. 182).
“Expliquei-lhe
que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idéia era
derribar o ministério, por não me parecer adequado à situação - e a certa forma
filosófica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês, embora
enérgica. (...) – Pois siga o que lhe parecer, concluiu: nós cumprimos a nossa
obrigação. – Deu-me as costas e voltou ao camarote” (p. 182).
148
– O PROBLEMA INSOLÚVEL
“Publiquei
o jornal. Vinte e quatro horas depois, aparecia em outros uma declaração do
Cotrim, dizendo, em substância, que “posto não militasse em nenhum dos partidos
em que se dividia a Pátria, achava conveniente deixar bem claro que não tinha
influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Doutro Brás
Cubas (...)”. Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas
vezes, e reli a declaração inoportuna, insólita e enigmática. Se ele nada tinha
com os partidos, que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de
uma folha? (...) Realmente, era um mistério a intrusão do Cotrim neste negócio,
não menos que a sua agressão pessoal” (p. 183-183).
“Devia
ser mui poderoso o motivo da declaração, que o fazia cometer ao mesmo tempo um
destempero e uma ingratidão; confesso que era um problema insolúvel” (p. 183).
149
– TEORIA DO BENEFÍCIO
“Quanto
à censura de ingratidão, Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, não como
improvável, mas como absurda, por não obedecer às conclusões de uma boa filosofia
humanística. – Não me podes negar um fato, disse ele; é que o prazer do
beneficiador é sempre maior que o do beneficiado” (p. 183).
“-
Mas, repliquei eu, se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio
no obsequiado, menos há de haver uma relação ao obsequiador. Quisera que me
explicasses esse ponto. – Não se explica o que é de sua natureza evidente,
retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma coisa a mais. A persistência do
benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa ação, e
dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo
lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura,
superioridade no estado e nos meios” (184).
150
– ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO
“(...)
O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me
de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora
da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de
Dona Plácida” (p. 185).
“(...)
o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e
translação; tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter, e deles compõe o
seu ano mais ou menos longo. No momento em que eu terminava o meu movimento de
rotação, concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na
escada ministerial” (p. 185).
“Fui
ao enterro. Na sala mortuária achei Virgília, ao pé do féretro, a soluçar.
Quando levantou a cabeça, vi que choravas deveras. Ao sair o enterro,
abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro” (p. 186).
151
– FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS
“Saí,
afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios” (p. 186).
152
– A MOEDA DO VESPASIANO
“Tinham
ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. (...) Não podia sacudir dos olhos
a cerimônia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgília. Os soluços,
principalmente, tinham o som vago e misterioso de um problema. Virgília traíra
o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade” (p. 186).
153
– O ALIENISTA
(...)
153
– OS NAVIOS DE PIREU
(...)
155
– REFLEXÃO CORDIAL
(...)
156
– ORGULHO DA SERVILIDADE
(...)
157
– FASE BRILHANTE
“E
vede agora a minha modéstia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci ali
alguns cargos, foi essa a fase mais brilhante da minha vida” (p. 190).
“Mas
a alegria que se dá à alma dos doentes e dos pobres é recompensa de algum
valor; e não me digam que é negativa, por só recebê-la o obsequiado. Não; eu
recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava
excelente idéia de mim mesmo” (p. 190).
158
– DOIS ENCONTROS
“No
fim de alguns anos, três ou quatro, estava enfarado do ofício, e deixei-o, não
sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. (...)
Vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem? ... a linda Marcela; e via-a
morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas,
achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a flor da moita,
Eugênia, a filha de Dona Eusébia e de Vilaça, tão coxa como a deixara, e ainda
mais triste” (p. 190).
“Então,
ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante.
Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não
receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa
de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubículo. Nunca mais a vi; (...)
foi com essa impressão profundo que cheguei ao hospital, onde Marcela entrara
na véspera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrépita...”
(p. 191).
159
– A SEMIDEMÊNCIA
“Quincas
Borba partira seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das
filosofias. Voltou quatro meses depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quase
no estado em que eu o vira no Passeio Público. A diferença é que o olhar era
outro. Vinha demente. Contou-me que, para fim de aperfeiçoar o Humanitismo,
queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo” (p. 191).
“Quincas
Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de
consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o
horror da situação” (p. 191).
“Morreu
pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma
ilusão” (p. 192).
160
– DAS NEGATIVAS
“Entre
a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira
parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que
apanhei” (p. 192).
“Não
alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não
conheci o casamento” (p. 192).
“-
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”
(p. 192).
[1] Pancada que se dá com a cabeça
do dedo médio apoiada sobre o polegar e soltando-se com força (Dicionário
Aurélio).
[2] Rude, broco (Dicionário
Aurélio).
[3] Catacumba; jazigo.
[4] Estado mental.
[5] Calma, despreocupação.
[6] Aparecer em ponto alto.
[7] Rígido.
[8] Passando a lâmina.
[9] Alto funcionário.
[10] Atordoado.
[11] Muito brilhantes.
[12] Fraco, precário.
[13] Ancião; caduco.
[14] Amargo, azedo.
[15] Alucinação, fantasia.
[16] Deboche, ironia.
[17] Galante, graciosa.
[18] Agudo, astuto, perspicaz.
[19] Barbante, cordão.
[20] Extremamente.
[21] Burlesca, ridícula.
[22] Crespo, pedregoso.
[23] Contestando, contrapondo.
[24] Anedotas, piadas.
[25] Travessura de criança.
[26] Destra, ligeira.
[27] Desatinos.
[28] Galante, graciosa.
[29] Alcoolizado, bêbado.
[30] Aquele que furta, ladrão.
[31] Dolorido, doloroso.
[32] Aposento, cela.
[33] Labor, trabalho.
[34] Carroça, carruagem.
[35] Barco, Caravela.
[36] Enganado, iludido.



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