DESCANSO PARA LOUCURA: Fichamento: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Fichamento: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

 

ASSIS, Machado de (1839-1908). Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro - São Paulo - Fortaleza, ABS Editora, 2005, 202 p.

 “Trata-se do primeiro romance da chamada segunda fase estética de Machado de Assis, a que se caracteriza por ser realista, marco mais evidente de um evoluir, e consideramo-la também algo naturalista e simbolista, de um peculiar Simbolismo, se atentarmos para uma camada de latência, a nosso ver elaborada de forma consciente, verificada em vários textos, ambíguos e sugestivos, da ficção dessa fase” (p. 5).

“Afrânio Coutinho (...) afirma que a obra de Machado de Assis é fundamentada sobre três grandes motivos: o humorismo, a tragicidade e a simbologia. Acrescentamos mais um motivo: o sensualismo, velado e sugerido, intimamente ligado ao simbólico” (p. 5).

“Brás Cubas é em verdade um vivo morto, contando sua história de morte simbólica. As ocorrências do livro são metaforicamente póstumas, porque se prendem a essa morte simbólica de Brás Cubas, à sua morte moral” (p. 5).

“Machado de Assis, em toda a sua obra da maturidade, utiliza-se de personagens que representam as pessoas do mundo, e estas, por sua vez, são produtos da Vida, isto é, de uma dessas entidades. Entre essas pessoas está o leitor, de quem zomba tanto através de Brás Cubas, desde a ameaça de dar-lhe piparote[1] até chamá-lo de obtuso[2]” (p. 7).

“Com sua mão de mestre, o autor nos oferece, em seu romance, uma experiência dos homens e da vida, escrevendo uma verdadeira obra-prima pela perfeição artística” (p. 7).

“Ao verme que primeiro roeu as minhas frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas” (oferecimento).

“Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens do pessimismo. Pode ser. Obra de finado” (p. 11) (Ao leitor).

“A obra em si mesma é tudo: se agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com piparote, e adeus” (p. 11) (Ao leitor).

1-ÓBITO DO AUTOR:

“Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa[3] foi outro berço; a segunda é que o escritor ficaria assim mais galante e mais novo” (p. 13).

“Expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos” (p. 13).

“Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúne em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção” (p. 14).

“Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa” (p. 14).

“Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo” (p. 14/15).

2-O EMPLASTO:

“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro” (p. 15).

“Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamente sublime, um emplasto anti-hipocondríaco[4], destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade” (p. 15).

“O que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas de remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas” (p. 15).

“Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: - amor da glória” (p. 15).

3-GENEALOGIA:

“O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria” (p. 16).

“Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos” (p. 16).

4-A IDÉIA FIXA:

“A minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um arqueiro, antes uma trave no olho” (p. 17).

“Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra[5], com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem relega, e é todavia mais do que passatempo e menos do que um apostolado” (p. 17).

5-EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA:

“Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes” (p. 18).

“No outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente, sem médico, nem cuidado, nem persistência, tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade” (p. 18).

“(...) me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contemporâneas suas, a anônima do primeiro capítulo, a tal, a cuja imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso (...). Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar[6] à porta da alcova...” (p. 18/19).

6-CHIMÈNE, QUI L’EÙT DIT? RODRIGUE, QUI L’EÙT CRU?:

“(...) pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem ânimo de entrar, ou detida pela presença de um homem que estava comigo” (p. 19).

“Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. Virgília tinha agora a beleza da velhice, um ar austero[7] e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela última vez, numa festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata” (p. 19/20).

“(...) para cortar dúvidas, virei para o Nhonhô. (...) Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao vê-los ali, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz” (p. 20).

“Virgília estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras” (p. 21).

7-O DELÍRIO:

“(...) é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante a uns vinte a trinta minutos. Primeiramente tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando[8] um mandarim[9], que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos; caprichos de mandarim” (p. 21).

“Logo depois senti-me transformado na Summa Teológica de S. Tomás, impressa num volume, e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto” (p. 21).

“Ultimamente, restituído à forma humana vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou” (p. 21).

“Fiquei vexado e aturdido[10]. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável” (p. 22).

“Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estancou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura de neve, que desta vez invadia o próprio céu, até ali azul” (p. 22).

“O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem. (...) sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes[11] como o sol” (p. 22/23).

“(...) a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. (...) Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante da qual me sentia eu o mais débil[12] e decrépito[13] dos seres” (p. 23).

“Entendeste-me? (...) Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar” (p. 23).

“Que mais queres tu, sublime idiota? Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque tua hás de golpear a ti mesma, matando-me?” (p. 24).

“Arrebatou-me ao alto de uma montanha” (p. 24).

“Tal era o espetáculo, acerbo[14] e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos” (p. 25).

“Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo” (p. 25).

“Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera[15] da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio[16], e sumia-se, como uma ilusão” (p. 25).

8- RAZÃO CONTRA SANDICE:

(...)

9-TRANSIÇÃO:

“E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci” (p. 27/28).

10-NAQUELE DIA:

“Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos” (p. 28).

“Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me à cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se era inteligente, bonito...” (p. 29).

“Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recém-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa”. (...) “Se não conto os mimos, os beijos, as admirações, as bênçãos, é porque, se os contasse, não acabaria mais o capítulo” (...) “Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas[17] festas do ano seguinte” (p. 29).

“Comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar às cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau” (p. 29/30).

11-O MENINO É PAI DO HOMEM:

“Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos o menino.” Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’, e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto[18], indiscreto, traquinas e voluntarioso” (p. 30).

“Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel[19] nos queixos, à guisa de ferro, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, - algumas vezes gemendo, - mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – ‘ai, nhonhô!’ – ao que eu retorquia: - ‘Cala a boca, besta!’” (p. 30)

“Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleira” (p. 30/31).

“De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim, como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade, e meu pai, passando o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro! (p. 31).

“Sim, meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz[20] crédula, apesar de abastada; temente às trovoadas e ao marido. O marido era a Terra e o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa” (p. 31).

“Vejamos os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida galante, conversa picaresca[21]” (...) Não me respeitava a adolescência, como não respeitava a batina do irmão; com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso[22]” (p. 31).

“As pretas (...) iam ouvindo e redargüindo[23] às pilhérias[24] do tio João, e a comentá-las de quando em quando com esta palavra: - Cruz, diabo!... Esse sinhô João é o diabo!” (p. 32).

“Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre” (p. 32). (...) Cônego foi a única ambição da sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, servo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impor aos outros” (p. 32).

“Não digo nada de minha tia materna, Dona Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa diferenciava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, uns dois anos” (p. 32).

12-UM EPISÓDIO DE 1814:

(...)

13-UM SALTO:

“Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras[25], os nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício e ociosos” (...) “Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim...” (p. 37).

“Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu primeiro cativeiro pessoal” (p. 38).

“14-PRIMEIRO BEIJO:

“Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer o bigode” (...) “Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote nas mãos e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século” (p. 38/39).

“De todas porém a que me cativou logo foi uma...uma...não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo” (...). “A que me cativou foi uma dona espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes” (p. 39).

“Era boa moça, lépida[26], sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que não lhe permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos[27] e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, - uma pérola” (p. 39).

“Vi-a, pela primeira vez, no Rossio Grande (...), logo que constou a declaração da independência. (...) Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa[28] e vistosa, um corpo esbelto”. (...) E eu segui-a, tão pajem como o outro (...). A meio caminho, chamaram-lhe, “linda Marcela”; lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto”. (p. 39).

“Três dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela” (...); à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subi nas escadas.” (...) “Ela ia abrir-me caminho para tornar à saída; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio[29]” (p. 40).

15-MARCELA:

“Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso” (p. 40).

“Afirmo-lhes que o asno foi digno do corcel, - um asno de Sancho deverás filósofo, que me levou à casa dela, no fim do citado período; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar” (p. 40).

“-Em verdade dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jóia; em verdade, você quer brigar comigo... Pois isto é coisa que se faça... um presente tão caro... E, se era jóia, dizia isto a contemplá-la em si, a rir, e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim” (p. 41).

“Nunca o desejo era razoável, mas um capricho puro, uma criancice, vê-la trajar de certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a passeio ou outra coisa assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira” (p. 43).

16-UMA REFLEXÃO IMORAL:

(...)

17-DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS:

“Marcela amou-se durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que deveras, achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil. (...) Vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno[30]. E como eu fizesse um gesto de espanto; - Gatuno, sim senhor, não é outra coisa um filho que me faz isso...” (p. 43/44).

“Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.” (...) “Eu ouvi-o calado, e nada opus à ordem de viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar Marcela comigo.” – “Não posso, disse ela com ar dolente[31]; não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por Napoleão...” (p. 44).

“Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos” (p. 44).

“Tive ímpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses de nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse...” (p. 44).

“-Não me aborreça, disse. Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, caminhou para a alcova[32]. - Sai desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar comigo” (p. 45).

“Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos” (p. 45).

“Enfim, tive uma idéia salvadora... (...) como a do emplasto (...). Era nada menos que fasciná-la, fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por meio mais concreto do que a súplica. Não medi as conseqüências: recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei a melhor jóia da cidade, três diamantes grandes, encastoados num pente de marfim; corri à casa de Marcela” (p. 45).

“Vem comigo, (...) arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que quiseres... Olha, toma. E mostrei-lhe o pente com os diamantes” (p. 45).

“Olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se dominado. (...) Doido! Foi a sua primeira resposta. A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor[33], olhando espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de repressão

“-Vens comigo? Marcela refletiu um instante. (...) Vou. Quando embarcas? Daqui a dois ou três dias. Vou” (p. 46).

18-VISÃO DE CORREDOR:

“E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...” (p. 46).

“Olhando para a porta, vi três dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, meteram-me numa sege[34], meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o da libré na boléia, e lá me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera[35] que devia seguir para Lisboa” (p. 47).

“Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. (...) Tinha uma idéia fixa... Malditas idéias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela” (p. 47).

19-A BORDO:

“Éramos onze passageiros, um homem doido (...), dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois criados”             (p. 47).

“Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto, ou se meu pai o pôs de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. (...) Eu não sabia nem pensava nada. O mundo para mim era Marcela” (p. 47).

“Os dias passavam, e as águas, e os ventos, e com eles ia...” (p. 49).

20-BACHARELO-ME:

“Adeus amores! adeus, Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regime, adeus! Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade” (p. 51).

“E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos de lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, - principalmente de saudades” (p. 51).

“No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado[36], ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade” (p. 52).

21-O ALMOCREVE:

(...)

22-VOLTA AO RIO:

“A cabo de alguns anos de peregrinações, atendi às súplicas do meu pai: - ‘Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta!’ Esta última palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha mãe” (p. 54).

“Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a ponte dos Suspiros, a gôndola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo, e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro” (p. 54).

23-TRISTE, MAS CURTO:

“Meu pai abraçou-me com lágrimas. – Tua mãe não pode viver, disse-me. (...) A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício. (...) Dona Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam também, não menos tristes e menos dedicadas” (p. 55).

“A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira; a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca. (...) Havia oito ou nove anos que nos não víamos” (p. 55).

“Longa foi a angústia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor e estupefação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém” (p. 55).

“Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...” (p. 56).

24-CURTO, MAS ALEGRE:

“Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...” (p. 56).

“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência” 9p. 56/57).

“hediondo (...) na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser” (p. 57).

“O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele não se estenda por cá, e não nos examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados” (p. 57).

25-NA TIJUCA:

“No sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque, - o Prudêncio do capítulo 11, - e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade” (p. 57).

“Renunciei tudo, tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil” (p. 57/58).

“Às vezes caçava, outras dormia, outras lia, - lia muito, - outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em idéia, de imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta” (p. 58).

“Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício” (p. 58).

26-O AUTOR HESITA:

“Súbito ouço uma voz: - Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço” (p. 59).

“Demais trago comigo uma idéia, um projeto, ou... sim, digo-te tudo; trago dois projetos, um lugar de deputado e um casamento” (p. 60).

“Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, das afeições, da família...” (p. 60).

“Virgílio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília” (p. 61).

27-VIRGÍLIA?

“Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois? (...) Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceia, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou talvez medo; creio que medo” (p. 61/62).

28-CONTANTO QUE...:

“(...) fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que... (...) Contanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem público...” (p. 62).

“Todo homem público deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. (...) A noiva e o parlamento são a mesma coisa... isto é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, contanto que...” (p. 62/63).

29-A VISITA:

“Aceito-os; meu pai deu-me dois fortes abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia” (p. 63).

“Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar Dona Eusébia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo” (p. 63).

“Dona Eusébia começou a falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou logo, posto me entristecesse” (p. 64).

30-A FLOR DA MOITA:

(...)

31-A BORBOLETA PRETA:

(...)

32-COXA DE NASCENÇA:

“Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé” (p. 67).

“Não, senhor, sou coxa de nascença” (p. 68).

“Tratei de apagar os vestígios de meu desazo; - não me foi difícil, porque a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chácara, árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia” (p. 68).

33-BEM AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM:

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!” (p. 68).

“Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas ao outro dia, a manhã era límpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana” (p. 68).

“O senhor desde amanhã? disse-me ela no sábado” (p. 69).

“Pretendo”. – Não desça” (p. 69).

“Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: - Bem - aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, - o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas cordialmente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida” (p. 69).

34-A UMA ALMA SENSÍVEL:

(...)

35-O CAMINHO DE DAMASCO:

“Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. – Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. – E como eu nada disesse, continuou: - Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito” (p. 70).

“Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito” (p. 70/71).

36-A PROPÓSITO DE BOTAS:

(...)

37-ENFIM!

“...perguntei ao meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento. – Nenhum ajuste. Há tempos conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que o fará. Quanto à noiva, é o nome que deu a uma criaturinha, que é uma jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... é a filha dele; imaginei que, se casasse com ela, mais depressa serias deputado” (p. 72).

38-A QUARTA EDIÇÃO:

“Entro na primeira loja que tinha à mão; era um cubículo, - pouco mais, - empoeirado e escuro.” Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher. (...) Essa mulher era Marcela” (p. 73).

“Não a conheci logo; era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que não durou mais de um instante” (p. 73).

“- Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão. Não respondi nada. (...) Deu-me uma cadeira e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das lágrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência” (p. 73).

“- Casou? disse Marcela no fim da minha narração. – Ainda não, respondi secamente” (p. 73).

39- O VIZINHO:

(...)

40-NA SEGE:

(...)

41-ALUCINAÇÃO:

(...)

42-QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES:

(...)

43-MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUÊS:

“Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. (...) Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro” (p. 78).

“Virgília replicou: - Promete que algum dia me fará baronesa? – Marquesa, porque eu serei Marquês. Desde então fiquei perdido” (p. 78).

44-UM CUBAS:

“Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa” (P. 79).

“Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo. Morreu daí a quatro meses, - acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses” (p. 79).

“Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu” (p. 79/80).

45-NOTAS:

(...)

46-A HERANÇA:

“Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, - minha irmão sentada num sofá, - pouco adiante, Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode, - eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio” (p. 80).

“Que é lá? redargüi; não cedi coisa nenhuma, nem cedo. – Nem cede? Abanei a cabeça. – Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo, é só o que falta. – Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais sumário citar-nos o juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus” (p. 81/82).

“Meu tio cônego apareceu à sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação. – Meus filhos, disse ele, lembrem-se de que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos” (p. 82).

“Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos brigados” (p. 82).

“Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a mor parte do tempo passei-a comigo mesmo”. (...) “Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas públicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta” (p. 83).

48-UM PRIMO DE VIRGÍLIA:

“Sabe quem chegou ontem de São Paulo? perguntou-me uma noite Luís Dutra”          (p. 83).

49-A PONTA DO NARIZ:

(...)

50-VIRGÍLIA CASADA:

“Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com Lobo Neves, continua Luís Dutra” – Ah! – E só hoje é que eu soube uma coisa, seu maganão... – Quem foi? – Você quis casar com ela. – Idéias de meu pai. Quem lhe disse isso? – Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então contou-me tudo” (p. 85).

“No dia seguinte (...) vi assomar, a distância, uma mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima, fiquei atônito” (p. 85).

“Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas, noutro baile (...) Valsamos; não nego que, ao conchegar meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação de homem roubado” (p. 86).

“Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: - o senhor hoje há de valsar comigo” (...) Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la, e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam... Um delírio” (p. 86).

51-É MINHA!

“É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro. (...) É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa” (p. 86).

“Arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra” (p. 86).

“Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei uma carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios ao seu alcance, fizesse devolvê-lo, às mãos do verdadeiro dono” (p. 87).

“Exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição” (p. 87).

“Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral posa arejar continuamente a consciência” (p. 87/88).

52-O EMBRULHO MISTERIOSO:

“Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia” (...) “Relancei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, - um pescador curava as redes ainda mais longe, - ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui” (p. 88)

“A curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de réis. (...) Cinco contos em boas notas e moedas, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo” (p. 88).

“Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados, materiais a respeito de cinco contos, - eu, que era abastado” (p. 88/89).

“De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária” (p. 89).

“Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem” (p. 89).

“Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma boa ação, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...” (...) “Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento” (p. 89).

“53-......:

“Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; - era o que dizia, e era verdade” (p. 90).

“Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, - coitadinha, - trêmula de medo, porque era ao portão da chácara” (p. 90).

54-A PÊNDULA:

“Saí dali a saborear o beijo” (p. 90).

55-O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA:

(...)

56-O MOMENTO OPORTUNO:

“Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-nos e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos o amar um ao outro com delírio” (...) Quem me explicará a razão dessa diferença?” (...) A razão não podia ser outra senão o momento oportuno” (p. 92).

57-DESTINO:

“Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque não me tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços, murmurando: - Amo-te, é a vontade do céu. (...) E esta palavra não vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa” (p. 93).

“Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de flanela preventiva e clandestina, mas evidentemente era engano meu” (p. 93).

58-CONFIDÊNCIA:

(...)

59-UM ENCONTRO:

“Esta idéia, rútila e grande, - trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, - esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graça” (p. 95).

“E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que não me pareceu conhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse” (p. 95).

“-Sou o Borba, o Quincas Borba (...). Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de colégio, tão inteligente e abastado Quincas Borba. (...) Os olhos tinham um resto de expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar” (p. 96).

“Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente. – Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa. Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios. (...) - Olhe que ainda hoje não almocei. – Não? – Não, saí muito cedo de casa” (p. 96).

“Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis (...) e dei-lha. (...) E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão radiosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lastima. (...) – Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. – Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. – Trabalhado, conclui eu. Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes, depois disse-me positivamente que não queria trabalhar” (p. 97).

60-O ABRAÇO:

“(...) não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristece-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo... (...) Meto a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! o Borba furtara-mo no abraço” (p. 98).

61-UM PROJETO:

“Jantei triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscências de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... (...) Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do passado, porque o encontro com o Quincas Borba tornara-me aos olhos do passado, no qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno” (p. 98).

“Saí de casa, mas era cedo; iria achá-los à mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba (...), a idéia de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me efetivamente: ‘esse sujeito’ ia por ali às vezes. (...) A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim próprio.... Nisto caía a noite; fui ter com Virgília” (p. 99).

62-O TRAVESSEIRO:

“(...) depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas”. (...) que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir? (p. 99).

63-FUJAMOS!

“(...) Três semanas depois, indo à casa de Virgília,  - eram quatro horas da tarde, - achei-te triste e abatida. Não me quis dizer o que era...” (p. 99).

“-Creio que o Damião desconfia alguma coisa. noto agora umas esquisitices nele... Não sei. Trata-me bem, não há dúvida, mas o olhar parece que não é o mesmo; (...) aterrada, estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja ilusão, mas eu penso que ele desconfia... Tranquilizei-a como pude, disse quer podiam ser cuidados políticos” (p. 99-100).

“Virgília, disse, eu proponho-te uma coisa. – Que é? – Amas-me? – Oh! suspirou ela, cingindo-me os braços ao pescoço” (p. 100).

“Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e fito nela, perguntei-lhe se tinha coragem. – De quê? – De fugir. Iremos para onde no for mais cômodo, uma casa grande ou pequena, à tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, ele pode descobrir alguma coisa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... e ele também, porque eu o matarei, juro-te” (p. 100-101).

“- Não escaparíamos talvez; ele iria te ter comigo e matava-me do mesmo modo. Mostrei-lhe que não. O mundo era assaz e vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele não chegaria até lá (...)” (p. 101).

“Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação; murmurou que o marido gostava muito dela. – Pode ser, respondi eu” (p. 101).

“(...) Justamente, neste instante, apareceu na chácara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pálida; descansa, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhando de uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou daí a três minutos” (p. 101).

“Virgília sentara-se ao lado dele, pegou-lhe numa das mãos, compôs-lhe a gravata. (...) – Janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves. – Veio para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro” (p. 102).

“Não olhei uma só vez para ela durante o jantar; falei de política, da imprensa, do mistério (...)” (p. 102).

64 – A TRANSAÇÃO:

“(...) Virgília começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta ideia fez-me sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquecê-la e a matá-la” (p. 103).

“No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo à casa de Virgília; achei-a com os olhos vermelhos de chorar. – Que houve, perguntei. – Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse ódio” (p. 103).

“(...) peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos. – Acabou, acabou, disse eu” (p. 103).

“Não tive ânimo de argüir, e, aliás, argüi-la de quê? Não era culpa dela se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera coisa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciúmes do outro, que nem sempre o podia de cara alegre (...)” (p. 103).

“-Você é que nunca me teve amor. – Eu? – sim, é uma egoísta! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma egoísta sem nome! Virgília desatou a chorar, e para não atrair gente, metia o lenço na boca (...). Inclinei-me para ela, travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a. – Não posso dizer, disse ela daí a alguns instantes, não deixo meu filho; se o levar (...). Não posso, mate-me você, se o quiser, ou deixe-me morrer...” (p. 104).

“Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doido, mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria. Virgília enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornávamos ao assunto da casinha solitária, em alguma rua escura” (p. 104).

65 – OLHEIROS E ESCUTAS:

“Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X (...). A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço” (p. 104).

“Chegando à rua arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinqüenta e cinco anos que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas” (p. 105).

“A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão de coração: era um hospital concentrado” (p. 105).

“Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu agora desarmava à força de lhe falar dos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. (...) eu curava-me de felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca” (p. 105).

66 – AS PERNAS

“Ora, enquanto eu pensava naquela gente, ia-me as pernas levando, ruas abaixo (...)” (p. 106).

67 – A CASINHA:

“Jantei e fui a casa. Lá achei uma caixa de charutos, que mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete: “Meu B... Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz... V...a” (p. 106).

“Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri à casa de Virgília. Era tempo; estava arrependida (...). A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior; a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas relações na casa; em suma, éramos objeto da suspeita pública” (p. 107).

“Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública (...). Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito; mas as emoções daqueles dois dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha” (p. 107).

“Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, enfim a presença do filho deles, meu cúmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta” (p. 107).

68 – O VERGALHO:

(...)

69 – UM GRÃO DE SANDICE:

(...)

70 – DONA PLÁCIDA:

“Custou-lhe muito a aceitar a casa (...). Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses; falava-me com eles, baixos, seria, carrancuda, às vezes triste” (p. 110).

“Quando obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novela. Dona Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que Dona Plácida era minha sobra” (p. 110).

71 – O SENÃO DO LIVRO:

(...)

72 – O BIBLIÔMANO:

(...)

73 – O LUNCHEON:

(...)

74 – A HISTÓRIA DE DONA PLÁCIDA:

“Dona Plácida era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira, compatíveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tísico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha” (p. 113).

“Trabalhava muito, queimando os dedos ao fogão, e os olhos ao candeeiro, para comer e não cair. Emagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição, e continuou a trabalhar” (p. 114).

“- Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas tão triste, tão triste, que pensei morrer. Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá; boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa” (p. 114).

75 – COMIGO:

(...)

76: O ESTRUME:

“Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, eu fui abrir a porta a Virgília” (p. 117).

77 – ENTREVISTA:

“Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e os vexames (...)”

“Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e os vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico. A intensidade do amor era a mesma; a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos” (p. 116).

78 – A PRESIDÊNCIA:

“Certo dia, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar uma presidência de província (...). Dias depois declarou á mulher que a presidência era coisa definitiva, Virgília não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades políticas” (p. 117).

“Virgília ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa da Gamboa, à minha espera; tinha dito tudo a Dona Plácida, que buscava consolá-la como podia: - Você há de ir conosco, disse-me Virgília. – Está doida? Seria uma insensatez. – Mas então...?” (117).

“Levantei-me, atirei o chapéu a uma cadeira, e entrei a passear de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada (...). Vendo que não falava, olhei para ela. Virgília tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude da suprema desesperança” (p. 118).

“- Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu. Virgília quis agarrar-me, mas eu já estava fora da porta”. (p. 118).

79 – COMPROMISSO

“Vacilava entre um querer e um não querer (...). – egoísmo, suponhamos – que me dizia: ‘Fica, deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ela o resolverá no sentido do amor’ (...). E eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a visita me levasse a compartir a responsabilidade da solução” (p. 118-119).

80 – DE SECRETÁRIO

“Na noite seguinte fui efetivamente à casa de Lobo Neves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito jovial (...). Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler um livro, mas por cima da página olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa” (p. 119).

“- Você é rico, continuou ele, não precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretário comigo. Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... (...). Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo” (p. 120).

81 – A RECONCILIAÇÃO

“No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina. – Isto não pode continuar assim, disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. – Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei estentendo-lhe os braços” (p. 120).

“Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados” (p. 121).

“Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos. – Entra, Sara, disse Sabina. Era minha sobrinha (...). Nisso, aparece-me à porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pai (...). Não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, porque eu andava com idéias de uma viagem ao Norte” (p. 121).

82 – QUESTÃO DE BOTÂNICA

“Continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma mulher, tinha confiança do marido, ia por secretário de ambos, e reconcialiava-me com os meus” (p. 122).

83 – 13

“Cotrim tirou-me daquele gozo, levando-me à janela. – Você quer que lhe diga uma coisa? perguntou ele; - não faça essa viagem; é insensata, é perigosa”. (p. 123).

“(...) Repito, não faça semelhante viagem; suporte a ausência, que é melhor, e evite algum grande escândalo e maior desgosto... Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, - um antigo lampião de azeite, - triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação” (p. 124).

“No dia seguinte, abro uma folha política e leio a notícia de que, por decretos de 13, tínhamos sido nomeados presidente e secretário de província de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi imediatamente à Virgília, e segui duas horas depois para a Gamboa (...); a objeção de Cotrim afligia-me.Virgília chegou daí a pouco, lépida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste, ficou muito séria. – Que aconteceu? – Vacilo, disse eu; não sei se devo aceitar... (...) Não é conveniente, dá muito na vista... - Mas nós já não vamos. – Como assim? Contou-me que o marido, ia recusar a nomeação, e por motivo que só lhe disse, a ela, pedindo-lhe o maior segredo; não podia confessá-lo a ninguém mais. – É pueril, observou ele, é ridículo; mas em suma, é um motivo poderoso para mim. Refletiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre” (p. 124-125).

84 – O CONFLITO

“Não me confessou o marido a causa da recusa; disse-me também que eram negócios particulares, e o rosto sério, convencido que eu o escutei, fez honra à dissimulação humana” (p. 125).

85 – O CIMO DA MONTANHA

“Entre a amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela” (p. 126).

86 – O MISTÉRIO

(...)

87 – GEOLOGIA

“Sucedeu por esse tempo um desastre; a morte do Viegas. Viegas passou aí de relance, com os seus setenta anos, abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma lesão de coração por quebra” (p. 127).

88 – O ENFERMO

(...)

89 – IN EXTREMIS

“Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado! não tem ninguém... Viegas caíra na cama definitivamente (...). Virgília ia lá de quando em quando. Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia ao pé dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei. Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro” (p. 130).

“- Quarenta contos, não lhe dou por menos. Só os juros... faça a conta dos juros” (p. 131).

“- Então? disse o sujeito magro. Fiz-lhe sinal para que não insistisse, e ele calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o teto, calado, a arfar muito: Virgília empalideceu, levantou-se, foi até à janela. Suspeitara a morte e tinha medo” (p. 131).

“- Trinta e oito contos, disse ele. – Ahn?... gemeu o enfermo”. (p. 131).

“Teve um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a disposição que estava em oferecer os quarenta contos; mais era tarde” (p. 132).

90 – O VELHO COLÓQUIO DE ADÃO E CAIM

“Insinuei-lhe que não devia pensar mais em semelhante negócio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de coisas alegres; o nosso filho, por exemplo” (p. 132).

“Lá me escapou a decifração do mistério, esse doce mistério de algumas semanas antes, quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! (...) Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! (...) Sentia-me homem” (p. 132-133).

“Esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o interminável nos limites de uma quarto de hora – baby e deputado, colegial e pintalegrete. (...) Virgília sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu já não lhe queria nada. A verdade é que estava em diálogo com o embrião; era o velho colóquio de Adão e, Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o mistério” (p. 133).

91 – UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA

“Por esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um objeto não menos extraordinário (...)”. Meu caro Brás Cubas, Há tempos no passeio público, tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. (...) Muitas coisas se deram depois do nosso encontro; irei conta-las pelo miúdo, se não me fechar a porta. (...) Cedi o meu degrau da escada de São Francisco; finalmente, almoço” (p. 133).

“É singularmente espantoso este meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanismo, de Humanitas, princípio das coisas. (...) até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do velho amigo Joaquim Borba dos Santos” (p. 134).

“Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta, contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembrança do velho Quincas. (...) Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que não se podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia” (p. 134).

92 – UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO

(...)

93 – O JANTAR

(...)

94 – A CAUSA SECRETA

“Virgília (...) estava ao canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei do nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante alusão, aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais” (p. 136).

“Imaginei também que a concepção seria um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa eficácia, que talvez começava de oprimi-la. (...) Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nascera o primeiro filho” (p. 137).

95 – FLORES DE ANTANHO

“Uma tarde, após algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o edifício das minhas quimeras paternais. Foi-se o embrião, naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga” (p. 137).

96 – A CARTA ANÔNIMA

“No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mão trêmula” (p. 137).

“O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era anônima e denunciava-nos. (...) limitava-se a precavê-lo contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pública. Virgília leu a carta e disse com imaginação que era uma calúnia infame. (...) O marido respirou; mas, tornando à carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra a indignação da mulher” (p. 138).

“Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistência, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia. (...) e concluiu dizendo que, para não dar margem à calúnia, tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá” (p. 138).

“Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranqüilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto, de saudades, e até de remorsos” (p. 138).

“Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa. Virgília recuou, como se fosse um beijo de defunto” (p. 139).

97 – ENTRE A BOCA E A TESTA

(...)

98 – SUPRIMIDO

“Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao teatro de São Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela arrancava lágrimas” (p. 139).

“No intervalo fui visitá-los. Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou mais os olhos de mim” (p. 139).

99 – NA PLATÉIA

“Na platéia achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos; falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro (...). Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranqüilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu-me que estava boa, mas torceu logo a conversação para assuntos gerais, expansivo, quase risonho” (p. 140).

100 – O CASO PROVÁVEL

(...)

101 – A REVOLUÇÃO DÁLMATA

(...)

102 – DE REPOUSO

(...)

103 – A DISTRAÇÃO

“Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz. Tinha razão Dona Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virgília tinha ido embora” (p. 143).

“Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que, Virgília ficou um pouco admirada, quando lhe pedi esculpa das lágrimas que derramara naquela triste ocasião” (p. 144).

“Virgília dizia-me uma porção de coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afeição” (p. 144).

“- Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe o que me parece? Parece-me que você está enfastiada, que se aborrece, que quer acabar... –Justamente. Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa... -  Adeus, Dona Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. – Está bom, está bom, disse-lhe. Virgília ainda forcejou por sair. (...) sentei-me ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes, outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria controversa” (p. 145).

104 – ERA ELE

“Virgília preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado três horas. Tudo estava esquecido e perdoado. Dona Plácida, que espreitava a ocasião idônea para a saída, fecha subitamente a janela e exclama: - Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá! O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor das rendas do vestido, correu até a porta da alcova (...)”. Virgília tornou a si; empurrou-me para a alcova, disse a Dona Plácida que voltasse à janela; a confidente obedeceu” (p. 145-146).

“Era ele. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de pasmo: - O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, faça favor (...). Virgília que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pálido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala” (p. 146).

“- Você vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos. – Vou” (p. 146).

“(...) A nossa boa velha tagarelava demais; era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgília, dominado o primeiro instante, tornara à posse de si mesma” (p. 146).

105 – EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS

“Dona Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim de arrancar Virgília do marido; foi o que disse e em bem que o disse, porque Dona Plácida deteve-me por um braço” (p. 146-147).

“A alcova foi uma janela fechada; eu abri a outra com gesto de sair, e respirei” (p. 147).

106 – JOGO PERIGOSO

“Respirei e sentei-me. Dona Plácida atroava a sala com reclamações e lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa nenhuma; refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior” (p. 147).

“(...) eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se era tempo de levantar e espairecer” (p. 147).

107 – BILHETE

“Não houve nada, mas ele suspeita alguma coisa; está muito sério e não fala; agora saiu (...). Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela” (p. 148).

108 – QUE NÃO SE ENTENDE

“Quanto a mim, se vos disse que li o bilhete três ou quatro vezes, naquele dia, acreditei-o, que é verdade. (...) Nem então, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. (...) Suponhamos que não disse nada” (p. 148).

109 - O FILÓSOFO

“Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de coisas opostas, desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves  e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e mandá-los de presente a Aristóteles” (p. 150).

110 – 31

“Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica” (p. 151-151).

111 – O MURO

“Eles estavam prestes a embarcar. Entretanto em casa de Dona Plácida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virgília; dizia que me esperava à noite, na chácara, sem falta. E concluía: “o muro é baixo do lado do beco”” (p. 151).

“Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal pensada e até ridícula (...). Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia a galgá-lo, via-me agarrado por um pedestre de polícia, que me levava ao corpo da guarda” (p. 151).

“- Diga-lhe que vou. – Aonde? perguntou Dona Plácida. – Onde ela disse que me espera. (...) Dona Plácida arregalou os olhos: - Mas esse papel, achei-o hoje de manhã, nesta sua gaveta, e pensei que... (...) em verdade, um antigo bilhete de Virgília, recebido no começo dos nossos amores, uma certa entrevista na chácara, que me levou efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto” (p. 152).

112 – OPINIÃO

“(...) Poucas horas depois, encontrei Lobo Neves, na rua do Ouvidor; falamos da presidência e da política” (p. 152).

“Ele não podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos” (p. 152).

113 – A SOLDA

(...)

114 – FIM DE UM DIÁLOGO

(...)

115 – ALMOÇO

“Não a vi partir; mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses” (p. 154).

116 – FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS

“A partida de Virgília deu-se uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar as moscas (...). Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tédio, e muito devaneio solto. Meu tio cônego morrei nesse intervalo; item, dois primos. Não me dei por abalado; levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco” (p. 155).

“Outras vezes agitava-me. Ia às gavetas, entornava as cartas antigos, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcela), e abri-as todas, li-as uma a uma, e recompunha o pretérito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o prazer de verte-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas de sete léguas e longas barbas assírias, ao bailar ao som de uma gaita anacreôntica. Guarda as tuas cartas da juventude!” (p. 155).

117 – O HUMANITISMO

“Duas forças, porém, além de uma terceira, compeliam-me a tornar à vida agitada do costume: Sabina e Quincas Borba. (...) Quando dei por mim estava com a moça quase nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expôs-me enfim o Humanitismo, sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas” (p. 156)

“- Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanistas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera” (p. 157-158).

“A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão. Quando a criança é ameaçada por um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitui a base da ilusão humana, herdada e transmitida” (p. 158).

“Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas” (p. 158).

118 – A TERCEIRA FORÇA

(...)

119 – PARÊNTESIS

“São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto (...): - Matamos o tempo; o tempo nos enterra” (p. 159).

120 – COMPELLE INTRARE

“- Não, senhor, agora quer você queira, quer não, há de casar, disse-me Sabina. Que belo futuro? Um solteirão sem filhos”. (...) A idéia de ter filhos deu-me um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido misterioso. Sim, cumpria ser pai” (p. 160).

121 – MORRO ABAIXO

“No fim de três meses, ia tudo à maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pai, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimônio. A lembrança de Virgília aparecia de quando em quando, à porta” (p. 161).

122 – UMA INTENÇÃO MUI FINA

(...)

123 – O VERDADEIRO COTRIM

(...)

124 – VÁ DE INTERMÉDIO

“Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte” (p. 164).

125 – EPITÁFIO

(...)

126 – DESCONSOLAÇÃO

“Epitáfio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhã-loló, a morte, o desespero da família, o enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei  que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela” (p. 165).

“(...) doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando à direita e à esquerda, levou também uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; não cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela morte” (p. 165).

“Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do sétimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruína. Quinze dias depois estive com ele; continuava inconsolável, e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada”. (...) Doze pessoas apenas, e três quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha. E ele fizera expedir oitenta convites” (p. 165-166).

127 – FORMALIDADE

(...)

128 – NA CÂMARA

“(...) Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um colega que contava uma anedota, e outro, que tirava a lápis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil de orador” (p. 167).

129 – SEM REMORSOS

“(...) não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado” (p. 168).

130 – PARA INTERCALAR NO CAPÍTULO 129

“A primeira vez que pude falar a Virgília, depois da presidência, foi um baile em 1855. (...) Lembra-me que falamos muito, sem aludir a coisa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo” (p. 168).

131 – DE UMA CALÚNIA

(...)

132 – QUE NÃO É SÉRIO

(...)

133 – O PRINCÍPIO DE HELVETIUS

(...)

134 – CINQÜENTA ANOS

“Não lhes disse ainda. – mas digo-o agora, - que quando Virgília descia a escada, e o oficial de Marinha me tocava no ombro, tinha eu cinqüenta anos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo, - ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos, - capeada de dissimulação e duplicidade, - mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual” (p. 171).

135 – OBLIVION

(...)

136 – INUTILIDADE

(...)

137 – A BARRETINA

“E daí, não; ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, acrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras coisas tristes. Mas esse filósofo, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia” (p. 172).

“Vamos lá; façamo-nos governo, é tempo. Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, comissões e votos; e a pasta não vinha. (...) Comecei devagar. Três dias depois, discutindo-se o orçamento da Justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava útil diminuir a barretina na guarda nacional. (...) A Câmara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independência, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, freqüente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus, decretando um uniforme leve e maneiro” (p. 173).

138 – A UM CRÍTICO

(...)

139 – DE COMO NÃO FUI MINISTRO D’ESTADO

(...)

140 – QUE EXPLICA O ANTERIOR

“Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira na Câmara dos Deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira política” (p. 175).

“Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem: e, conquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha chácara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus pássaros, ao pé dos meus livros, alumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquela outra cadeira, que não era minha” (p. 176).

141 – OS CÃES

- “Mas, enfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me Quincas Borba, indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas. – Não sei; vou meter-me na Tijuca; fugir dos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada” (p. 176).

“Para distrair-me, convidou-me a sair; saímos para os lados do Engenho Velho. Íamos a pé, filosofando as coisas. (...) A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. (...) Funda um jornal, disse-me ele, e “desmancha toda essa igrejinha”” (p. 176).

“- Magnífica idéia! Vou fundar um jornal, vou escachá-los, vou...” (p. 176).

“Daí a pouco demos com uma briga de cães; fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dois. Notou que ao pé deles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne” (p. 177).

“Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais grandioso: as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc.” (p. 177).

142 – O PEDIDO SCRETO

“(...) Andando, disse-lhe que tinha uma dúvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães. Ele respondeu-me com excepcional brandura: - Disputá-la aos outros homens é mais lógico, porque a condução dos contendores é a mesma, e leva o osso o que for mais forte” (p. 177).

“(...) Entramos, e o Quincas Borba, com a discrição própria de um filósofo, foi ler a lombada dos livros de uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de Virgília: Meu bom amigo, Dona Plácida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma coisa por ela; mora no Beco das Escadinhas; veja se alcança metê-la na Misericórdia. (...) Não era a letra fina. e correta de Virgília, mas grossa e desigual (...), era muito difícil atribuir-lhe a autoria” (p. 178).

143 – NÃO VOU

“Enquanto ele restituía o livro à estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engolir. (...) – Tens alguma coisa; aposto que foi aquela carta? – Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incomodado, com o pedido de Virgília. Tinha dado a Dona Plácida cinco contos de réis; duvido muito que ninguém fosse mais generoso do que eu, nem tanto. (...) Tinha de ir lá, chamar a atenção dos vizinhos, bater à porta, etc. Que maçada! Não vou” (p. 178).

144 – UTILIDADE RELATIVA

“Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara” (p. 180).

145 – SIMPLES REPETIÇÃO

(...)

146 – O PROGRAMA

“Urgia fundar o jornal. Redigi o programa, que era uma aplicação política do Humanitismo (...). Quincas Borba exigiu apenas uma declaração, autografa e reservada, de que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do livro dele, ainda inédito” (p. 180).

147 – O DESATINO

“Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta, dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista, daí a algumas semanas, redigido pelo Doutor Brás Cubas” (p. 181).

“No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim (...). Vira a notícia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante idéia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia colocar-me numa situação difícil e, de certa maneira trancar as portas do parlamento” (p. 181).

“- É um verdadeiro desatino, repetiu ele; pense ainda alguns dias, e verá que é um desatino. A mesma coisa disse Sabina, à noite, no teatro” (p. 182).

“Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idéia era derribar o ministério, por não me parecer adequado à situação - e a certa forma filosófica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês, embora enérgica. (...) – Pois siga o que lhe parecer, concluiu: nós cumprimos a nossa obrigação. – Deu-me as costas e voltou ao camarote” (p. 182).

148 – O PROBLEMA INSOLÚVEL

“Publiquei o jornal. Vinte e quatro horas depois, aparecia em outros uma declaração do Cotrim, dizendo, em substância, que “posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a Pátria, achava conveniente deixar bem claro que não tinha influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Doutro Brás Cubas (...)”. Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declaração inoportuna, insólita e enigmática. Se ele nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha? (...) Realmente, era um mistério a intrusão do Cotrim neste negócio, não menos que a sua agressão pessoal” (p. 183-183).

“Devia ser mui poderoso o motivo da declaração, que o fazia cometer ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão; confesso que era um problema insolúvel” (p. 183).

149 – TEORIA DO BENEFÍCIO

“Quanto à censura de ingratidão, Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, não como improvável, mas como absurda, por não obedecer às conclusões de uma boa filosofia humanística. – Não me podes negar um fato, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado” (p. 183).

“- Mas, repliquei eu, se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado, menos há de haver uma relação ao obsequiador. Quisera que me explicasses esse ponto. – Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma coisa a mais. A persistência do benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa ação, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios” (184).

150 – ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO

“(...) O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de Dona Plácida” (p. 185).

“(...) o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação; tem os seus dias, desiguais como os de Júpiter, e deles compõe o seu ano mais ou menos longo. No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial” (p. 185).

“Fui ao enterro. Na sala mortuária achei Virgília, ao pé do féretro, a soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que choravas deveras. Ao sair o enterro, abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro” (p. 186).

151 – FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS

“Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios” (p. 186).

152 – A MOEDA DO VESPASIANO

“Tinham ido todos; só o meu carro esperava pelo dono. (...) Não podia sacudir dos olhos a cerimônia do enterro, nem dos ouvidos os soluços de Virgília. Os soluços, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um problema. Virgília traíra o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade” (p. 186).

153 – O ALIENISTA

(...)

153 – OS NAVIOS DE PIREU

(...)

155 – REFLEXÃO CORDIAL

(...)

156 – ORGULHO DA SERVILIDADE

(...)

157 – FASE BRILHANTE

“E vede agora a minha modéstia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci ali alguns cargos, foi essa a fase mais brilhante da minha vida” (p. 190).

“Mas a alegria que se dá à alma dos doentes e dos pobres é recompensa de algum valor; e não me digam que é negativa, por só recebê-la o obsequiado. Não; eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava excelente idéia de mim mesmo” (p. 190).

158 – DOIS ENCONTROS

“No fim de alguns anos, três ou quatro, estava enfarado do ofício, e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. (...) Vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem? ... a linda Marcela; e via-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a flor da moita, Eugênia, a filha de Dona Eusébia e de Vilaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste” (p. 190).

“Então, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubículo. Nunca mais a vi; (...) foi com essa impressão profundo que cheguei ao hospital, onde Marcela entrara na véspera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrépita...” (p. 191).

159 – A SEMIDEMÊNCIA

“Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quase no estado em que eu o vira no Passeio Público. A diferença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo” (p. 191).

“Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação” (p. 191).

“Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão” (p. 192).

160 – DAS NEGATIVAS

“Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei” (p. 192).

“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento” (p. 192).

“- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” (p. 192).


[1] Pancada que se dá com a cabeça do dedo médio apoiada sobre o polegar e soltando-se com força (Dicionário Aurélio).

[2] Rude, broco (Dicionário Aurélio).

[3] Catacumba; jazigo.

[4] Estado mental.

[5] Calma, despreocupação.

[6] Aparecer em ponto alto.

[7] Rígido.

[8] Passando a lâmina.

[9] Alto funcionário.

[10] Atordoado.

[11] Muito brilhantes.

[12] Fraco, precário.

[13] Ancião; caduco.

[14] Amargo, azedo.

[15] Alucinação, fantasia.

[16] Deboche, ironia.

[17] Galante, graciosa.

[18] Agudo, astuto, perspicaz.

[19] Barbante, cordão.

[20] Extremamente.

[21] Burlesca, ridícula.

[22] Crespo, pedregoso.

[23] Contestando, contrapondo.

[24] Anedotas, piadas.

[25] Travessura de criança.

[26] Destra, ligeira.

[27] Desatinos.

[28] Galante, graciosa.

[29] Alcoolizado, bêbado.

[30] Aquele que furta, ladrão.

[31] Dolorido, doloroso.

[32] Aposento, cela.

[33] Labor, trabalho.

[34] Carroça, carruagem.

[35] Barco, Caravela.

[36] Enganado, iludido.




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