Conto
premiado no evento: Prêmio Graciliano Ramos de Literatura Nordestina 2006-07,
realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de Palmeira dos Índios - AL. Em âmbito
regional – Nordeste.
A realidade é mesmo cruel, massifica
a todos de uma forma ou de outra, pois os elementos potencialmente capazes de
suprir as necessidades humanas são inúmeros: emocionais, materiais, simbólicos
e tantos outros especificamente ligados a cada pessoa ou a cada realidade
singularizada.
O
mercado nos oferece inúmeras chances e possibilidades de consumir, nos inclui
numa eterna e viciosa massa de pessoas consumistas, estereotipadas, rotuladas e
sem o mínimo e o necessário de autonomia. Torna nossa vida e nossos objetos
descartáveis, sempre substituíveis, inclusive nosso caráter e nossos
comportamentos. Com isso, a verdade e a validade das coisas e até das pessoas
são costumeiramente postas em questionamento, em dúvida e sempre se requer o
máximo de recursos para fazer valer certas atitudes ou situações.
O
homem civilizado, inerente ao mercado, aprendeu a fabricar objetos que se dizem
úteis e necessários que nos seduzem quando são jogados no comércio e daí nos
influenciam infernalmente através da propaganda e do “marketing” e nos fazem adquiri-los, mesmo sem as mínimas
possibilidades e condições financeiras.
Por outro lado, o homem na civilização, porém excluído dela, hipócrita,
sem escrúpulos e noutra perspectiva “solidário” com os pobres, acaba
falsificando certos objetos, enfim tudo, para assim popularizar e fazer com que
todos possam os adquirir, até os miseráveis, para que fiquem a vida toda
atrelados ao mercado e afogados em dívidas, todavia, “deste modo se igualam”.
Hoje
em dia, tudo que você imaginar pode ser falsificado, desde o mundo dos vivos,
até o mundo dos inanimados. São feitos com material suscetível ao desgaste,
fracos em resistência, de uma forma ou de outra falsificados: roupas, calçados,
CDs, DVDs, acessórios, aparelhos elétricos, domésticos, móveis... e até pessoas. Sim, pessoas! Aquelas que
aparentam ser o que de fato não o são ou aquelas que “se igualam” e acompanham
o mercado e seus lançamentos, se esquecendo de olhar para seus gostos
verdadeiros e menos influenciados. Além desses é falsificado o dinheiro, o tal
elemento fundamental na troca de mercadorias essenciais e também banais.
A
maioria dos homens e das mulheres trabalha em troca de objetos, em troca de
dinheiro e grande parte desta maioria em troca de sobrevivência.
Mostrarei
então o caso de José: homem humilde, rústico, com disposição para todo tipo de
trabalho, pois ele tem a responsabilidade e a necessidade de sustentar sua
abundante família: uma mulher – a Maria- que faz do lar a labuta diária e os
filhos em crescimento e em fase de consumo. José trabalha para sustentar-se e
sustentar sua família e essencialmente por dinheiro, mas às vezes, aceita
outros elementos em troca das atividades que exerce. É um homem que concorda com quase tudo, exceto
com a condição de não colaborar e seguir a vida segundo os preceitos éticos e
morais, portanto, zela por uma vida regrada pelo bem comum, pelo seu bom senso
e pela responsabilidade. Ele acha que é melhor trabalhar desesperadamente e sem
descanso e assim sobreviver dignamente, do que, por exemplo, se apossar das
coisas dos outros, sejam elas de grande ou de pequeno valor, sem permissão ou
direito, o que consiste no que os homens chamam de roubo. O roubo deva ter sido
inventado, criado e alimentado, exclusivamente, pelos poderosos, quando desde
antigamente até os dias atuais e os que virão, abarcam extremas porções de
riquezas e deixam bilhões de necessitados sem expectativa, sem opções, sem
nada.
Ultimamente
a família de José está bem, feliz e satisfeita, ele trabalhou desde o início do
mês e está prestes a receber o tão aclamado pagamento pela força de trabalho
gasto.
Que
bom! José recebeu seis onças pela força de trabalho que gastou, já que,
consequentemente realizou atividades para um empregador. Ótimo! Ele vive numa
região pouco habitada, com clima propício e estas seis onças serão de extrema
utilidade para sua sobrevivência e a de sua família.
Uma
vez que eu tenho certeza e José também que, qualquer pessoa, seja no mercado
das transações comerciais, seja até numa casa de família em pleno jantar,
aceitarão uma das suas onças ou até mesmo as seis, a depender do que ele
desejar ou precisar adquirir “dando-as” em troca.
Mas,
José, assim como tantos outros trabalhadores se decepciona muito. Hoje, por
exemplo, ele foi ao mercado e a feira livre, procurava comprar uma saca de
farinha, a necessidade era extrema, uma vez que, a farinha é o principal
acompanhamento do feijão no almoço de milhões de famílias simples e essas ainda
são “privilegiadas”, pior são as que não conseguem comprar nem a farinha e nem
o feijão, imagine como poderão “vender o caráter” de boa conduta! A
miserabilidade, a pobreza, a falta de saúde e educação e tantas outras
precariedades são abundantes, são também profecias certas e obrigatórias para
os políticos, estes verbalizam sempre a erradicação de tais situações
prejudiciais, mas não erradicam na prática, nem poderiam, senão ficariam sem um
bom nível de “discurso político”.
A
decepção de José foi porque na hora em que foi efetivar a transação, isto é, a
troca, ele se lembrou que precisava de duas em vez de apenas uma saca de
farinha, pois uma ele já devia ao seu vizinho mais próximo e era obrigado a
repor o empréstimo. E por que ele não comprava farinha por quilo? Não, assim
arriscaria passar ainda mais fome. Com a saca já em casa era garantia de
alimento por mais tempo, enquanto durasse aquela maior quantidade, ou seja, a
saca de farinha.
Então,
o proprietário temporário das farinhas, isto é, o atravessador, interrogou
José, sobre qual forma de pagamento compensaria as sacas de farinha que
pretendia comprar. O mesmo ainda acrescentou que faria um “precinho” menor do
que o dos demais vendedores.
José,
entusiasmado, sem se dar conta que estava numa situação de pré decepção
afirmou “consciente” que daria em troca das duas sacas de farinha uma das suas
onças, novinha de conserva, com pouquíssima circulação, extremamente valiosa
quanto a tradição que ela possui e de um fascínio terrível para todas as
pessoas, sejam crianças, adultos ou idosos.
Imediatamente
o vendedor pensou, mas... não aceitou somente isto, uma simples onça! Disse que
apenas uma onça era pouco, por mais bela, valiosa e fascinante que fosse e por
todo o desejo de consumo que despertava, fosse em um caçador que a quisesse para
– com ela - comprar outros mantimentos para a família, fosse em um empresário
poderoso, cheio de grandeza e
“impossibilitado” de ajudar, que com ela e talvez com outras colocasse
um belo tapete em seu suntuoso escritório, para exibir sua superioridade sobre
o resto dos homens pobres ou até mesmo sobre a natureza. O vendedor exigiu,
portanto, a onça e também um papagaio. Papagaios são menos valiosos, mas para
muitos são até inacessíveis, "inconquistáveis", trabalhosos para se conseguir.
José
decepcionou-se cronicamente e até falou em tom alto com o vendedor de farinhas.
Ele definitivamente desabafou que não era fácil conseguir uma onça para trocar
por duas sacas de farinha, afinal trabalhou o mês inteiro, de sol a sol para
conseguir as seis. Pior seria se desfazer de uma e ainda arrumar um papagaio,
teria, portanto, que trocar outra onça por papagaios! É extremamente difícil
consegui-los, deve-se trabalhar muito, mais muito mesmo, dedicar-se ao trabalho
e se esquecer da própria espontaneidade.
E
quando eu for comprar as demais coisas? Pensou. Pedirão, talvez, outras onças,
ou uns peixes exagerados e extremamente difíceis de conseguir, ainda mais do
que as onças, ainda mais do que os micos-leões-dourados porque estão em
extinção ferrenha e tornam-se pouco vistos, porém suscetíveis à captura. Ou
tartarugas, especificamente se forem marinhas. Nem mesmo as garças são fáceis
de conseguir, são vistas muitas, tanto nas estações quentes quanto nas frias,
mas adquiri-las é outra coisa e até mesmo os beija-flores, que chegam a tocar e
“cheirar” as rosas em nossos jardins, mas assim não estão em nossas mãos, não
são nossos e é muito difícil preservá-los em mãos.
Com
isso, José se deu conta que, para ter tais recursos que representam a troca por
outras mercadorias é preciso preservarmos os mares e os rios; conservarmos as
matas; plantarmos flores e rosas ao redor das nossas casas e assim
constituirmos jardins e termos beija-flores. E ainda, protegermos os lagos e
reflorestarmos a terra além de limparmos todo o ambiente. Portanto, com isso
teríamos tartarugas-marinhas, peixes, onças, papagaios, e beija-flores, além de
micos-leões-dourados ou simplesmente “macaquinhos”, sem contar nas garças
brancas, constituição de átomos brancos que sobrevoam nossas essências, se
assim fossem tornadas símbolos.
A
decepção de José resume-se e justifica-se porque ele trabalhou o mês inteiro e
em troca recebeu seis onças, aparentemente valiosas. As onças, os peixes, os
papagaios, os macacos, as garças, tartarugas, aves e até os que não têm a
figura de animal, mas são simbolicamente valiosos e podem ser trocados por
outras mercadorias, sempre se apresentam como tesouros valiosíssimos e
extremamente necessários, isto é um fato!
A
esposa de José, dona Maria, tentou consolar o pobre homem injustiçado, dizendo
que era assim mesmo, geralmente não se conseguia trocar o que se tinha pelos
objetos e utensílios dos outros, sempre foi assim, tem que haver um consenso de
ambas as partes, alguém trocava aquilo que se tinha com abundância enquanto o
outro não o tinha, esse outro, respectivamente, “ofertava” aquilo que possuía
em grande quantidade.
José,
mergulhado ainda mais na falta de autonomia, no obscurantismo da liberdade,
tomou uma drástica decisão. Novamente foi à feira, decidiu trocar todas as suas
seis onças valiosíssimas e fantásticas, as quais carregava escondidas, pois à
vista despertariam o interesse de todos, inclusive daqueles que sequer
trabalham o mês inteiro.
É
verdade que os trabalhos que José realizava não eram os piores, mas sempre requeriam,
além da específica e exigente concentração mental, uma extrema força física,
capaz de deixar as mãos e os pés grossos, dignos de uma pintura tal qual o “Abaporu.”
Na feira, ele não só decepcionou-se,
como também sofreu calúnias, foi acusado das piores coisas e se sentiu um
ninguém, nem mesmo era mais um trabalhador assalariado, era algo medonho,
fraudulento, pior que os piores alienados. Sim, pois achava que o trabalho lhe
garantia ser um homem valoroso, honesto e verdadeiro cidadão, mas sempre esteve
enganado, porque o trabalho não livre aliena também os valores assim como
desmerece a condição humana, quando esse trabalho é forçado e só dá lucro ao
capitalista.
Simplesmente
as onças não foram aceitas no pagamento da importante compra que José fez,
foram, portanto, confiscadas. Sequer foi o IBAMA que realizou tal ação, foi um
simples caixeiro de um supermercado que as confiscou. Chamou a Polícia e acusou José, afinal ele
era o portador daquelas onças! Alegou que José portava de objetos que possuíam
apenas inverdades. Como pôde considerar falsas aquelas onças perfeitas de José?
Afinal elas possuíam tudo que as outras possuíam!
José
foi então impedido de continuar com as onças e o delegado alegou que elas
seriam encaminhadas para uma instância superior, para o local de onde saem as
verdadeiras e fascinantes onças. José manifestou-se, já que poderia perdê-las e
então exigiu onças verdadeiras, se é que as dele eram indignas de verdades!
Mas, o delegado disse que simplesmente ele as perdeu. Como assim? Perguntou-se.
Perderia também um mês de serviços trabalhados e não alimentaria sua família?
Saiu
alucinado e revoltado da delegacia, pensou em beber todas para não pensar no
que havia perdido, porém, ainda conservava alguns valores e preferiu ir para o
aconchego da família. E lá chegando só sabia se lamentar à sua esposa. José
então, disse a ela e aos filhos que ao redor estavam, que a vida era realmente
cruel, mas por outro lado havia se dado conta que essa vida é bem mais que o
trabalho exacerbado que tira toda a nossa força e nos remete tão pouco. Como é
difícil! – exclamava -, trabalhamos a vida toda, alienados, ferozmente
aniquilados, impedidos de sonhar, porque quase todos não são possíveis de
realizar.
Ingenuinamente, José achava que era bem remunerado, que o que ganhava
era o valor justo por todas as atividades que realizava. Enganado sempre
esteve, agora se dava conta - ao menos hoje - que o que o empregador paga é
somente o suficiente para sobrevivermos, renovarmos parte da força para
podermos gastá-la no dia seguinte e pior é quando, ao chegarmos em casa, nos
damos conta que todo aquele valor que nos “pagou” o mês inteiro de sacrifício e
labuta, na verdade, é como neve que
derrete e jorra ao Sol forte, além do que evapora; é como a escuridão perante a
luz, não rende, se esvai. Esse pagamento não serve como deveria servir, não
satisfaz.
Continuou
a dizer a sua esposa que aquelas lindas e cobiçadas onças que recebera como
pagamento eram ilusão, eram manutenção da maquinaria humana de forma fictícia.
-Ai Maria, eu pobre alienado, que preciso
viver e manter outros, os quais, sem verbalizar amo, não poderia ter sido tão
maltratado e enganado. É preciso ter cuidado, você viu Maria, aquele valor, o
“tesouro” que recebi por trabalhar deveria ter avaliado antes de receber, ter
preservado mais, o protegido, já que
existem outros que os querem, desejam sem que tenham direito, esses são
mais alienados do que eu, não por trabalharem bem mais e receberem menos, pelo contrário,
verdadeiramente porque esses sequer vendem a força de trabalho, são portanto
inúteis, estão à margem da sociedade e vivem numa alienação como uma espécie de
comichão, que faz deles seres que desejam, mas não lhes facilitam meios de
alcançar tais desejos.
José só não chorava porque era homem
forte e apesar de tudo, daria a volta por cima e continuaria a sobreviver.
Todavia, deleitava-se em decepções, injustiças, pois o governo não “arranca os
cabelos” quando roubam-lhe bilhões de reais, mas conosco é diferente, por isso
não temos nada e por que viríamos a ter?
E
ainda comentou que as “pobres onças” que recebeu pelos trabalhos do mês foram
inúteis, inválidas:
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Açucenas: jardim próprio. |
-Minha querida, você as viu, eram lindas,
fofas, ainda continham cheirinho de natureza e um pouco, ou um tanto de
industrialização. Encantavam, eram valiosas e refletiam muito interesse e
cobiça, por isso o medo de os alienados, ainda mais que eu, as roubarem. Por causa disso, as quis preservar por alguns
dias. No entanto, as influências eram imensas, as necessidades constantes, os interesses
e os artifícios do mercado nos obrigaram a trocá-las por alimentos, roupas,
calçados, enfim, objetos que nos suprissem nossa sobrevivência. Portanto, se não fossem as duras necessidades
eu as preservaria, as via crescer, eram onças maravilhosas, possuíam um cheiro
particular, incontestável, reconhecível por qualquer um, aquilo que eu poderia
chamar de um cheiro felino, atrativo, de uma ação fugitiva, circulante, que não
se contentam em ficar presas, não querem dono permanente, são livres e proporcionam
liberdade, mas às vezes, acorrentam para sempre, levam o ser humano ao
declínio, ao desespero, a perdição e até à morte, eis a força e o poder
dessas onças e de qualquer outro
elemento animalesco.
Ficou cabisbaixo, pensativo e
novamente desabafou:
-Realmente
Maria, a perda foi cruel, tudo porque minhas “verdadeiras” onças eram falsas e
o tal do Banco Central as resgatou, elas foram apreendidas e por isso Maria,
estamos sem mantimentos, sem alimentação e é doloroso ver uma lágrima cair do
rosto de um filho. Vamos passar fome, pois nós só tínhamos aquelas onças. Os
peixes são extremamente difíceis de conseguir e os micos-leões-dourados, que
ainda por cima estão à míngua? Será que um papagaio ou uma garça? Não,
tentaremos uma tartaruga ou quem sabe um beija-flor!
-Pensando bem Maria, a
partir de agora, plante flores e rosas cheirosas ao redor de nossa humilde
casa, para que o perfume delas seja lançado para todos os horizontes e assim
podermos atrair, ao menos, beija-flores.
-E se o dinheiro não nos suprir,
certamente a beleza nos suprirá!